A On Holding, aquela fabricante suíça de tênis cara que virou febre entre executivo que corre dez quilômetros no domingo para se sentir vivo, aprovou nesta semana um programa de recompra de ações de até um bilhão de dólares, válido até 2029. O comunicado saiu com aquele verniz técnico habitual, falando em "retornar valor ao acionista" e "confiança na geração de caixa futura". Tradução do economês para o português: a empresa vai gastar um bilhão comprando os próprios papéis no mercado para empurrar a cotação para cima artificialmente, porque crescer vendendo tênis, aparentemente, já não basta.

Recompra de ação é um truque contábil elegante e perfeitamente legal, e é exatamente por isso que merece desconfiança. Quando a empresa recompra papel, o número de ações em circulação diminui, o lucro por ação sobe mecanicamente sem que um único par de tênis a mais tenha sido vendido, e os bônus da diretoria, atrelados justamente a esse indicador, engordam por decreto. O acionista de longo prazo aplaude porque vê o preço subir; o executivo que tem opções de compra aplaude mais alto ainda porque vê o próprio bolso engordar. Ninguém para para perguntar quem está financiando a festa.

A resposta está no que não se vê. Um bilhão de dólares gastos em recompra é um bilhão de dólares que não vai para pesquisa de novos materiais, não vai para expansão de fábrica, não vai para reduzir preço ao consumidor final, não vai para melhorar salário do sujeito que costura a solha na Vietnã. É capital que sai da economia produtiva e entra na engenharia financeira pura. E o mais irônico é que boa parte desse dinheiro, em empresas do setor de consumo global, veio historicamente de juros artificialmente baixos e de expansão monetária dos bancos centrais, ou seja, veio da inflação silenciosa que corroeu o poder de compra do trabalhador comum para engordar o balanço da companhia listada em Nova York.

O timing também merece um olhar torto. A On anuncia o programa num momento em que o setor de vestuário esportivo enfrenta desaceleração de vendas, competição feroz da Nike tentando se reinventar, da Hoka avançando no mesmo nicho de conforto premium, e de marcas chinesas oferecendo produto tecnicamente comparável por um terço do preço. Quando uma empresa diz que a melhor coisa que pode fazer com um bilhão de dólares é comprar o próprio papel, está dizendo, sem dizer, que não enxerga oportunidade melhor de investimento produtivo. É um voto de desconfiança no próprio futuro operacional, embrulhado em papel de presente e vendido como confiança.

Existe ainda a dimensão que ninguém no noticiário financeiro toca: a recompra concentra propriedade. Os grandes fundos que já detêm fatias relevantes veem sua participação relativa aumentar sem gastar um centavo, enquanto o pequeno investidor, o funcionário que recebeu ações como bônus, o fundo de pensão de professor aposentado, ficam com uma fatia proporcionalmente maior de uma empresa que pode ou não entregar crescimento real nos próximos cinco anos. É uma transferência de risco disfarçada de generosidade corporativa, e o regulador americano, capturado como sempre pelos mesmos bancos que estruturam essas operações, faz vista grossa há décadas.

O tênis é bonito, a margem operacional é robusta, a marca é bem construída, tudo isso é verdade. Mas quando a notícia de destaque de uma empresa de consumo é a manipulação legalizada do próprio preço de ação, e não um lançamento revolucionário ou uma expansão inteligente, o investidor atento entende o recado. A festa continua, o champanhe é caro, e a conta, como sempre, chega depois, para quem menos deveria pagar.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.