Um trilhão e duzentos bilhões de dólares. Escreva o número por extenso e olhe de novo. É mais que o PIB anual do Brasil, é mais que o valor de mercado somado de metade das empresas listadas na bolsa de São Paulo, é uma cifra que só existe porque alguém, em algum escritório com vista para a baía de São Francisco, decidiu que existe. A OpenAI, empresa que ainda queima dinheiro em ritmo industrial e adiou o próprio IPO porque o mercado público faria perguntas incômodas, está prestes a receber essa avaliação numa rodada privada. E o mais fascinante é que ninguém no jornalismo econômico parece achar isso estranho.

Quer dizer, adiar o IPO e simultaneamente levantar dinheiro a uma avaliação estratosférica é o equivalente financeiro de recusar o exame de sangue e mesmo assim exigir que o médico assine o atestado de saúde. O mercado privado é confortável porque não tem o hábito grosseiro de exigir demonstrativo trimestral, prospecto detalhado, auditoria independente ou aquela coisa antiquada chamada lucro. É o clube fechado onde os mesmos fundos de venture capital passam a bola entre si, cada rodada validando a anterior, cada avaliação inflando a próxima, num carrossel que só funciona enquanto ninguém pede para descer.

Siga o dinheiro e a coisa fica interessante. A Microsoft já enfiou dezenas de bilhões na empresa e é simultaneamente investidora, fornecedora de infraestrutura em nuvem e principal cliente comercial. Ou seja, boa parte do que a OpenAI fatura volta na forma de conta de servidor para a mesma Microsoft que financiou a compra dos servidores. É contabilidade circular vestida de revolução tecnológica. Os fundos soberanos do Oriente Médio entram, os venture capitalistas do Vale entram, e cada um deles precisa que a avaliação suba na próxima rodada porque, se cair, o balanço deles evapora junto. Não é investimento no sentido clássico da palavra, é aposta coletiva sustentada pela impossibilidade coletiva de admitir o erro.

Toda geração acha que a sua bolha é diferente. Nos anos vinte era o rádio, nos anos noventa era a internet, em 2008 eram os derivativos imobiliários que os matemáticos juravam ser à prova de risco. A justificativa é sempre a mesma: desta vez a tecnologia é transformadora, desta vez o velho manual não se aplica, desta vez os fundamentos foram reescritos. E toda vez o velho manual reaparece com juros e correção monetária no dia em que alguém, no fundo da fila, decide que quer sacar em dinheiro vivo. O curioso é que as pessoas mais inteligentes do planeta são justamente as que se convencem primeiro de que estão imunes à gravidade.

Olha, ninguém aqui está negando que a inteligência artificial gera valor real, produtividade real, transformação real em setores concretos. O ponto não é esse. O ponto é a distância obscena entre o valor que a tecnologia efetivamente entrega hoje e o valor que os intermediários financeiros dizem que ela vale hoje. Uma empresa que ainda depende de subsídio permanente de investidores para pagar a conta de luz não vale um trilhão de dólares por decreto de assembleia. Vale o que o fluxo de caixa futuro descontado disser que vale, e esse fluxo, no caso presente, ainda é fumaça bonita.

O IPO adiado é a única honestidade involuntária de toda essa história. Adiaram porque sabem que o escrutínio público, com sua vulgaridade de exigir números que fecham, tornaria a avaliação insustentável em vinte e quatro horas. Enquanto isso, o mercado privado segue tocando a orquestra no convés, os investidores institucionais dançam, e quando o balão finalmente encontrar o alfinete, adivinha quem vai pagar a conta na forma de resgates de fundos de pensão, de rombos em bancos regionais e de mais um ciclo de socialização de prejuízos que os professores da vida real vão nos explicar como sendo culpa do mercado. Bolhas não estouram por acaso; elas estouram porque foram infladas com ar quente e mentira educada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.