O ouro permaneceu estável nesta segunda enquanto o mercado prende a respiração diante da nova cúpula entre Estados Unidos e China e da fumaça que não para de subir no Oriente Médio. Estável, veja bem, num patamar que há três anos era considerado delírio de aluno de escola austríaca em fim de festa. O que era teto virou piso, e ninguém no jornalismo econômico oficial tem coragem de perguntar por quê. A resposta é constrangedora demais para caber num boletim de banco: o ouro não subiu, foi o dinheiro de vocês que encolheu.

Repare no truque de mágica. Os bancos centrais do mundo inteiro passaram uma década imprimindo moeda como se papel fosse riqueza, financiaram guerras que ninguém pediu, socorreram bancos que ninguém elegeu, bancaram pacotes de estímulo que ninguém pagou, e agora fingem surpresa quando o metal que a humanidade escolheu espontaneamente como reserva de valor por cinco mil anos decide não obedecer à narrativa. O ouro está estável porque já precificou a bagunça. Quem ainda acha que dólar, euro ou real são reserva de valor está acreditando em promessa de político em véspera de eleição.

A cúpula EUA-China é o teatro. Dois impérios que se acusam mutuamente de manipular moeda, sabotar cadeia produtiva e subsidiar campeões nacionais vão sentar à mesa para combinar quem vai fingir recuar primeiro. Enquanto isso, os dois governos compram ouro em silêncio, através de seus bancos centrais, na maior operação de acúmulo do metal desde Bretton Woods. Faça o que eu digo, não faça o que eu faço. Se o dólar fosse tão sólido quanto o Tesouro americano jura em coletiva, para que Washington precisaria estocar barra de ouro? Se o yuan fosse a moeda do futuro, para que Pequim compraria como se o mundo fosse acabar amanhã? Siga o metal, ele conta a verdade que o comunicado oficial esconde.

E o Oriente Médio? O Oriente Médio é o pretexto de sempre, o mesmo desde que se inventou a impressora. Toda vez que uma potência precisa justificar novo salto de gasto militar, novo pacote emergencial, nova rodada de expansão monetária disfarçada de defesa nacional, aparece uma crise providencial que exige coragem, união e, principalmente, cheque em branco do contribuinte. O que se vê é a bandeira tremulando no telejornal. O que não se vê é a fatura chegando na conta de luz, no supermercado, no aluguel, na gasolina, no colégio dos filhos. Guerra não é aquecimento econômico coisa nenhuma, guerra é destruição de capital financiada por confisco silencioso via inflação, e o ouro sabe disso melhor que qualquer ministro da Fazenda.

O brasileiro que olha esse noticiário de longe deveria prestar atenção redobrada, porque aqui a farra é a mesma com sotaque tropical. Enquanto o governo anuncia com pompa cada novo arcabouço, cada novo teto que já nasce furado, cada nova regra fiscal que dura menos que promessa de campanha, o Banco Central segue rodando a máquina para financiar déficit primário que ninguém tem coragem de cortar. E o resultado prático, aquele que aparece na sua vida real e não no gráfico da apresentação em PowerPoint, é que sua poupança vale menos hoje do que valia ontem, e valerá menos amanhã do que vale hoje. O ouro parado no gráfico é, na verdade, o dinheiro derretendo debaixo dos seus pés.

A moral da história é velha e desagradável, por isso ninguém quer ouvir. Não existe almoço grátis, não existe estímulo sem fatura, não existe guerra sem confisco, não existe cúpula sem teatro. Existe um metal amarelo que atravessou impérios, revoluções, guerras mundiais e delírios monetários, e continua lá, indiferente ao noticiário, esperando pacientemente o dia em que o rei vai aparecer nu de novo. E vai aparecer. Sempre aparece.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.