O ouro deu uma engasgada, caiu forte, e agora se acomoda enquanto o índice de preços ao produtor nos Estados Unidos vem mais frio que o esperado. Os analistas de terno bem cortado traduzem isso como "boa notícia para o Fed cortar juros". Olha, é bonita a coreografia. Um dado sai abaixo do consenso, o mercado precifica corte, o dólar cede, o metal amarelo respira. Parece técnica, parece ciência, parece que alguém está no comando. Não está. O que se vê é uma manada gigantesca tentando adivinhar o próximo movimento de um comitê de treze pessoas que decide arbitrariamente o preço do dinheiro do planeta inteiro.
Repare no absurdo antes que a familiaridade o torne invisível. Existe um cartel monopolista que fixa o custo do capital para o resto do mundo, e a atividade mais bem paga do sistema financeiro consiste em ler folhas de dados para tentar prever o humor desse cartel na próxima reunião. Se um oligopólio privado fizesse o mesmo com o preço do trigo ou do aço, haveria uma comissão parlamentar de inquérito antes do fim do mês. Mas quando é o preço do dinheiro, chamam de política monetária, dão diplomas de doutor honoris causa e transmitem a coletiva ao vivo.
O ouro sobe porque as pessoas sentem, mesmo sem articular, que o sistema está trincado. Um PPI mais fraco não significa que a economia vai bem; significa que a atividade está desacelerando, que a demanda está cedendo, e que o Fed vai usar essa desculpa para fazer o que já queria fazer de qualquer forma, abrir de novo a torneira. Cada ciclo é a mesma novela. Sobe juro para conter a inflação que ele mesmo criou imprimindo na crise anterior, quebra alguma coisa no caminho, corre para cortar juro, imprime de novo, e o ouro vai marcando o placar. O metal não fala inglês nem português, mas conta a história melhor que qualquer editorial.
Siga o dinheiro e a fotografia fica nítida. Quem lucra com juro baixo é o governo endividado, que rola sua dívida colossal com menos dor, é o banco grande, que pega barato no atacado e revende caro no varejo, e é o especulador alavancado, que precisa de crédito farto para inflar ativos. Quem paga a conta é o assalariado, o aposentado, o pequeno poupador, aquele sujeito que juntou uma reserva a vida inteira e vê seu poder de compra derreter no silêncio das planilhas. A inflação é o imposto mais covarde já inventado, porque ninguém votou nele, ninguém aprovou uma alíquota, e ainda assim ele sai do bolso de todo mundo enquanto os beneficiários fingem que estão salvando a economia.
O detalhe engraçado, se é que dá para rir, é que essa mesma imprensa que trata cada declaração do banco central como oráculo délfico vai passar a próxima década explicando por que ninguém previu a próxima crise. Vão dizer que foi um evento inesperado, um cisne negro, uma tempestade perfeita. Não foi. Foi a consequência aritmética de décadas expandindo crédito acima da poupança real, distorcendo a estrutura produtiva, criando bolhas em série e chamando de riqueza aquilo que era apenas dívida disfarçada. O ouro, esse fóssil bárbaro que os sofisticados adoram desprezar, continua ali, quieto, sem render juros, sem prometer nada, apenas existindo em quantidade limitada num universo onde tudo mais pode ser impresso por decreto.
Enquanto o mercado se emociona com décimos de ponto percentual num índice de preços, o enredo de fundo permanece o mesmo desde que Nixon fechou a janela do ouro em setenta e um. Vive-se numa experiência monetária sem paraquedas, ancorada em nada além da confiança de que a próxima geração aceitará a fatura. Um dia essa confiança vai romper, e quando romper não será num anúncio solene do presidente do Fed, será num gráfico do ouro que ninguém explicará direito. O metal já está avisando. Basta ter olhos para ver e coragem para não olhar para o outro lado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.