O ouro sobe, o petróleo cai, e os analistas de terno bem cortado saem correndo para explicar o óbvio com palavras difíceis. Falam em "alívio nos temores de alta de juros" como quem descreve o clima, ignorando o que realmente está acontecendo debaixo da mesa. Quando o metal que atravessou impérios, guerras e colapsos monetários de cinco milênios volta a brilhar, o recado não é técnico, é civilizacional. É o mercado sussurrando aquilo que o Banco Central grita nas entrelinhas dos seus comunicados: a moeda que você tem no bolso vale menos do que ontem, e vai valer menos ainda amanhã.

Repare no truque de linguagem. "Alívio nos temores de alta de juros" traduzido para o português dos mortais significa: o mercado apostou que a impressora não vai desacelerar tanto quanto se temia. É isso. Ninguém está comemorando produtividade, inovação, ganho real de eficiência produtiva. Estão comemorando que o veneno vai ser administrado em doses um pouco menos agressivas. É o alcoólatra vibrando porque o médico permitiu meia dose a mais. E, previsivelmente, o preço do ouro reage, porque o ouro é a única coisa nesse cassino que ninguém consegue imprimir na madrugada com um clique de teclado.

O petróleo cair simultaneamente completa o quadro, e completa mal. Cotação de commodity industrial em queda geralmente sinaliza duas coisas: ou tem óleo demais no mercado, ou tem economia real de menos. Aposte na segunda opção. A demanda global está esmorecendo enquanto os bancos centrais tentam equilibrar o prato quebrado que eles mesmos derrubaram. Os industriais desconfiam, os importadores seguram estoque, os consumidores começam a sentir que aquele emprego eterno talvez não seja tão eterno assim. E no meio dessa lama, o ouro sobe. Não porque o mundo está bem, mas porque o mundo está fugindo do papel colorido que os governos chamam de dinheiro.

Historicamente, quando as pessoas correm para o ouro, elas não estão fazendo previsão de curto prazo, estão fazendo confissão de fé perdida. Isso aconteceu na década de setenta, quando a inflação americana descontrolou depois que o dólar deixou de ter lastro nenhum. Aconteceu em toda hiperinflação latino-americana, quando o cidadão comum descobria, tarde demais, que sua poupança tinha virado pó. Aconteceu na Weimar, aconteceu em Zimbábue, aconteceu na Venezuela. Cada vez com um figurino diferente e sempre com o mesmo enredo: governos gastam o que não têm, bancos centrais monetizam o rombo, e a população desperta um dia percebendo que o número na conta corrente é ficção literária.

E siga o dinheiro, porque essa é a única bússola que não mente. Quem se beneficia da narrativa do "alívio"? Os endividados soberanos, obviamente, que querem juros baixos para rolar montanhas de dívida impagável. Os bancos que ganham dos dois lados da mesa. Os fundos alavancados que precisam de liquidez farta para continuar apostando com dinheiro alheio. Quem paga a conta? O aposentado que vê a poupança derreter, o assalariado que vê o supermercado ficar mais caro toda semana, o pequeno empresário que não consegue calcular preço em economia onde o padrão de medida encolhe todo mês. É a mesma pilhagem de sempre, com nome novo e slide bonito de apresentação.

Fica a lição que os oráculos de Faria Lima jamais dirão em voz alta: ouro subindo é termômetro de febre, não sinal de saúde. Enquanto o mercado comemora migalhas de moderação monetária, a substância continua a mesma, o dinheiro continua a ser fabricado do nada, e o preço dessa mágica continua a ser pago pelos que não têm acesso à mesa onde se decide quanto vale o suor alheio. Quando o ouro grita, o cidadão prudente ouve. Quando o economista de televisão sorri, é hora de guardar a carteira.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.