A Oxford Nanopore, empresa britânica que revolucionou o sequenciamento genético com aparelhos portáteis do tamanho de um pendrive, acaba de arrancar da Alta Corte de Londres uma liminar contra a chinesa MGI Tech, braço de sequenciamento da BGI. O tribunal reconheceu que os produtos da MGI infringem patentes centrais da tecnologia de nanoporos, e proibiu a venda dos equipamentos no Reino Unido enquanto o mérito tramita. Para quem acompanha o setor de biotecnologia, isto não é surpresa, é confirmação. É o mesmo enredo que se repete há décadas, agora em vestes de laboratório.
Vamos ao que interessa. A Oxford Nanopore investiu mais de uma década e centenas de milhões de libras para desenvolver uma tecnologia que ninguém sabia fazer. A MGI Tech, por sua vez, faz parte de um conglomerado que recebe subsídios generosos do governo chinês dentro do programa Made in China 2025, o plano oficial de Pequim para dominar setores estratégicos até o fim desta década. Traduzindo o burocratês, o contribuinte chinês paga para que empresas estatais copiem o que os outros criaram e depois vendam mais barato no mercado global, quebrando quem inventou. Isto não é livre concorrência, é dumping tecnológico com dinheiro público.
O ponto que ninguém quer enfrentar é o seguinte. Quando um governo transforma a violação sistemática de propriedade intelectual em política industrial, ele não está apenas prejudicando a empresa vítima da cópia; está corroendo a base do próprio conceito de inovação. Ninguém investe uma década de pesquisa se sabe que, no dia em que o produto chegar ao mercado, um competidor subsidiado vai engenharia-reversar o aparelho e vender pela metade do preço. O resultado invisível dessa política, o efeito que os defensores da globalização a qualquer custo não querem discutir, é a morte silenciosa da próxima geração de descobertas científicas no Ocidente.
Repare no detalhe delicioso da hipocrisia. A mesma China que exige respeito absoluto a suas próprias patentes internas, que aprisiona empresários por copiarem tecnologia doméstica, é a que sistematicamente pilha o acervo intelectual estrangeiro através de joint ventures forçadas, ciberespionagem industrial e engenharia reversa financiada pelo Estado. É o velho truque do mercantilismo travestido de globalização. Livre comércio para vender o que copiou, muralha da China para proteger o que produziu em casa. E o Ocidente, entorpecido pelo dogma de que qualquer restrição comercial é heresia, assinou tratados que amarram suas próprias mãos enquanto o adversário joga com todas as cartas escondidas.
A decisão britânica importa porque quebra uma inércia perigosa. Por anos, empresas ocidentais engoliram cópias flagrantes com medo de perder acesso ao mercado chinês, aquele mercado mítico de bilhão e meio de consumidores que raramente se materializa como prometido. Preferiam o silêncio à briga, e o resultado foi um sangramento contínuo de propriedade intelectual. A Oxford Nanopore decidiu enfrentar, gastou fortunas em advogados e agora tem uma vitória preliminar que serve de precedente. É o tipo de coragem empresarial que raramente se vê hoje, quando a maioria dos CEOs prefere fazer relatório de sustentabilidade a defender o patrimônio dos acionistas.
Fica a lição para quem ainda acredita que instituições fortes são detalhe secundário. Um Judiciário independente, capaz de fazer valer contratos e patentes, é a diferença entre uma economia que gera invenção e uma economia que gera imitação. O Reino Unido, com todos os seus defeitos, ainda tem tribunais que funcionam. A China tem tribunais que executam ordens do Partido. Adivinhe em qual dos dois lugares o próximo Steve Jobs vai preferir montar sua empresa. A resposta está escrita no balanço da própria Oxford Nanopore, que continua londrina apesar de todos os cantos de sereia vindos do outro lado do mundo.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.