O painel científico da agência reguladora europeia de medicamentos, o famoso CHMP, saiu do último ciclo de reuniões recomendando a aprovação do glepaglutide, análogo de GLP-2 desenvolvido pela Zealand Pharma, para tratar a síndrome do intestino curto em adultos que dependem de nutrição parenteral para não morrer. A Comissão Europeia agora tem cerca de dois meses para bater o martelo formal, num rito que todo mundo finge ser técnico mas que, na prática, é a última estação de uma via-crúcis de mais de uma década de ensaios clínicos, dossiês e reuniões fechadas. A ação da farmacêutica dinamarquesa saltou em Copenhague, os analistas de bancos correram para revisar planilhas, e o paciente, coitado, continua ligado ao cateter esperando a canetada.

Vale entender do que se trata. Síndrome do intestino curto é o nome clínico para uma tragédia silenciosa, gente que perdeu metros de intestino por doença de Crohn, isquemia, câncer ou trauma, e que passa a depender de bolsas de nutrição parenteral infundidas por horas todo santo dia. É caro, é doloroso, encurta a vida e destrói qualquer rotina. Um medicamento que ajuda o intestino remanescente a absorver mais nutrientes não é frescura de laboratório, é a diferença entre ficar acorrentado a uma bomba de infusão e voltar a jantar com a família. Existe um único concorrente relevante na categoria há anos, o teduglutide, e quem paga a conta na Europa, majoritariamente, é o próprio contribuinte via sistemas públicos de saúde, o que já explica metade da lentidão e a totalidade do preço final.

Agora olhe para o que se vê e para o que não se vê. O que se vê é a manchete boazinha, comitê recomenda, ações sobem, Bruxelas se apresenta como madrinha do progresso científico. O que não se vê é o custo do intervalo. A molécula existe há anos, os ensaios de fase três terminaram há tempos, e ainda assim o paciente europeu esperou fila enquanto formulários eram preenchidos em três idiomas. Cada mês de atraso regulatório se traduz, em doença rara, em internações que não precisavam acontecer, em qualidade de vida que não voltou, em famílias que se endividaram bancando o que o sistema empurrava com a barriga. A conta invisível dessa demora não aparece em nenhum comunicado oficial, porque quem morreu esperando não assina abaixo-assaixo.

E siga o dinheiro, que é sempre o exercício mais esclarecedor. O modelo de negócio da farmacêutica de doença rara é o mesmo em toda parte: décadas queimando capital de risco em ensaios, para no fim entregar a molécula a um comprador único e monopsônico, o Estado, que negocia preço com uma mão enquanto financia associações de pacientes com a outra. O laboratório precifica alto porque a fila regulatória e o mercado pequeno exigem, o pagador público esperneia em público e paga em silêncio, o intermediário regulatório justifica seu orçamento pelo próprio ritual, e o cidadão comum, que nunca ouviu falar de intestino curto, banca tudo via imposto. Não existe almoço grátis em Bruxelas, existe almoço cuja fatura foi partida em fatias tão finas que ninguém sente a mordida individual.

O ponto não é reclamar do remédio, é entender a cerca que se ergueu em volta dele. Os defensores do arranjo dirão, e com alguma razão, que sem o carimbo europeu ninguém sabe se o comprimido é seguro. Verdade parcial. O que ninguém explica é por que o carimbo precisa custar uma década, custar milhões e ser dado por um único cartório continental cuja decisão vale para meio bilhão de pessoas. Concorrência entre reguladores, reconhecimento mútuo de aprovações de agências sérias, liberação condicional acompanhada de farmacovigilância, tudo isso existiria num mundo que tratasse o paciente como adulto e não como pupilo de um comitê. Preferiu-se o oposto, e o resultado é o de sempre, uma vitrine de solenidade técnica cobrindo uma pilha de vidas em compasso de espera.

Fica então a moral pouco solene da história. Todo aplauso ao cientista dinamarquês que passou anos brigando com peptídeos até acertar o alvo, e todo aplauso ao paciente que aguentou o ensaio clínico com o corpo. Zero aplauso ao aparato que se pendurou no meio do caminho e agora quer crédito pela liberação daquilo que jamais deveria ter sido seu para liberar. Regulação sanitária começou querendo evitar veneno na farmácia e terminou virando pedágio moral entre o doente e a esperança. Quando o carimbo demora mais que a doença, o burocrata deixou de proteger vida, passou a administrar morte com papel timbrado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.