A cena se repete com pontualidade suíça. Uma biotech de porte modesto sobe ao palco de um fórum de banco de investimento, no caso a Stifel, e anuncia com pompa que seu ativo carro-chefe, um inibidor de PDE4, está avançando para a fase 2 de ensaios clínicos. O mercado ouve, os analistas anotam, alguns papéis dançam no intraday, e o comunicado é redigido com aquela prosa cuidadosamente vaga que promete o mundo sem prometer absolutamente nada. A Palisade Bio é apenas o nome da vez num teatro que se encena há décadas em Wall Street e nas suas filiais tropicais.

O PDE4, para quem não passa as noites folheando bulas, é um alvo farmacológico conhecido, explorado, cobiçado e, sobretudo, cheio de cadáveres pelo caminho. Muita gente já tentou, poucos conseguiram, e os que conseguiram descobriram que a fronteira entre eficácia e efeito colateral desagradável costuma ser fininha. Anunciar que se avança para fase 2 é dizer, em bom português, que se conseguiu não matar ninguém em fase 1, o que é louvável, mas está longe, muito longe, de significar que se tem um remédio nas mãos. É como celebrar ter aprendido a andar de bicicleta na garagem e já estar planejando a volta da França.

Vale seguir o dinheiro, que é o esporte mais honesto que existe. Empresas nesse estágio queimam caixa num ritmo que faria corar qualquer prefeito perdulário. Financiam-se com emissões sucessivas de ações, diluindo o pequeno investidor que comprou a tese, enquanto executivos travam contratos generosos, consultores faturam por apresentação em fórum, bancos de investimento embolsam comissão em cada rodada e o cientista de bancada, aquele que de fato faria a diferença, ganha um salário modesto e uma promessa de opções que talvez virem pó. O fórum da Stifel não é um encontro acadêmico, é uma feira de captação, e cada slide otimista é uma isca lançada para o próximo cheque.

Não se trata de condenar a pesquisa farmacêutica, que é uma das atividades mais nobres que o capitalismo produziu justamente por transformar risco privado em benefício potencialmente universal. Trata-se de separar o que é ciência do que é encenação financeira. Quando um Estado decide encampar esse jogo via subsídio, crédito subsidiado ou compras garantidas de futuro medicamento, o problema muda de natureza. O prejuízo deixa de ser dos acionistas que apostaram sabendo do risco e passa a ser do contribuinte, que jamais assinou embaixo. E o que se vê, invariavelmente, é o anúncio triunfante do investimento público; o que não se vê são os hospitais sem insumo básico, os leitos sem enfermeiro e o pequeno laboratório inovador que faliu porque o dinheiro foi para o queridinho da vez.

A fase 2 dirá o que tem de dizer. Ou a molécula mostra sinal clínico consistente e a Palisade vira alvo de aquisição por uma farmacêutica grande, coroando os primeiros investidores, ou o ensaio decepciona e o papel vira pó, e alguém, em algum outro fórum, apresentará outro alvo promissor com outra sigla de três letras. O ciclo continua porque o incentivo continua. Enquanto houver capital ávido por retorno de dez vezes, haverá quem venda a próxima cura como se já estivesse embalada na farmácia. O trabalho de quem lê é não confundir slide bonito com evidência clínica, e não confundir avanço regulatório com sucesso terapêutico. Esperança não é dado, e narrativa não é remédio.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.