O Datafolha, esse instituto que dificilmente será acusado de bolsonarismo militante, jogou na mesa neste sábado um número que deveria constranger qualquer democrata de bem: 62% dos brasileiros querem Alexandre de Moraes fora do Supremo, seja pela porta do afastamento voluntário, seja pela porta cerimoniosa do impeachment. Não é minoria raivosa de rede social, não é bolha de aplicativo criptografado, não é gado, como gostam de dizer os iluminados de Higienópolis. É a maioria absoluta e ampla do país, medida pelo mesmo instituto que a imprensa serviçal cita como palavra santa quando o resultado convém. Quando não convém, some da manchete.

A pergunta que se impõe, e que nenhum editorial da grande imprensa terá coragem de fazer, é simples: como um magistrado se torna ao mesmo tempo investigador, acusador, juiz e executor sem que a estrutura republicana range? A resposta também é simples, ainda que desagradável aos ouvidos treinados no juridiquês. Não range porque foi cuidadosamente engraxada. Cada inquérito aberto de ofício, cada decisão monocrática que atropela colegiado, cada rede social bloqueada sem contraditório, cada empresário preso em regime especial por postagem, tudo isso não caiu do céu. Foi construído tijolo por tijolo, com a aquiescência silenciosa de quem lucrava com o arranjo e a covardia festiva de quem aplaudia porque a vítima da vez era o inimigo político certo.

Convém lembrar, para os desmemoriados profissionais, que tribunais que se autoproclamam salvadores da pátria são figurinha carimbada na história latino-americana, e nunca, absolutamente nunca, saíram bem na foto do longo prazo. Roma teve seus pretores que legislavam por edito e terminou em ruínas administrativas antes das ruínas físicas. O Directório francês criou tribunais de exceção para salvar a revolução dos revolucionários e pariu Napoleão. Toda vez que a toga sai da cadeira e assume o púlpito, a conta chega, e chega pesada. A diferença é que, no Brasil, os arquitetos do arranjo ainda acham que a fatura será paga por outro.

Siga o dinheiro, sempre. Quem financia o silêncio conveniente? A big tech multada até o pescoço aprendeu a preferir o acordo à briga, e agora produz relatórios de transparência que são cartas de rendição. Advogados que faturam milhões defendendo réus em processos que só existem porque o mesmo magistrado abriu, virou perito e vai julgar. Comentaristas de televisão que descobriram na democracia militante uma forma elegante de garantir cadeira cativa em jantares oficiais. Ministros do próprio tribunal que trocaram a colegialidade pela conveniência de deixar um colega tocar o serviço sujo enquanto guardam as próprias digitais limpas. Todos comem na mesma mesa, e a conta, como sempre, sobra para o contribuinte que paga o salário, o auxílio-moradia, o auxílio-paletó e o auxílio-toga do senhor absoluto de Brasília.

A tese oficial, repetida em coro por comentaristas que confundem bajulação com jornalismo, é que sem essa concentração de poder a democracia teria desabado. É o velho argumento do incendiário fantasiado de bombeiro: veja como fui necessário, sem mim tudo teria queimado, esqueça que fui eu quem trouxe o fósforo. A premissa é falsa e a conclusão, portanto, também. Democracia não se defende suspendendo garantias, prendendo por opinião e censurando plataformas ao gosto do freguês togado. Isso tem outro nome, e o nome está nos manuais de história dos regimes que a esquerda festiva jura combater enquanto reproduz o método com sotaque brasileiro.

Os 62% não são raiva, são clareza. É o momento em que a criança da fábula aponta para o desfile e diz o óbvio sobre a nudez do soberano. O incômodo dos cortesãos revela justamente que o traje imaginário caiu. Resta saber se os representantes eleitos, aqueles que constitucionalmente têm o dever de acionar o freio institucional, terão a coragem que a pesquisa acabou de lhes oferecer de bandeja, ou se preferirão continuar posando de estadistas enquanto o país inteiro percebe que o rei está pelado, e que quem paga a fantasia é sempre o mesmo otário de sempre.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.