Basta um oleoduto sair do ar na Arábia Saudita e o planeta perde, num piscar de olhos, algo em torno de 4% do abastecimento de petróleo. Não é guerra, não é embargo, não é ataque cibernético coordenado por potência rival, é uma paralisação num tubo. E aí o barril sobe, os postos sobem, o frete sobe, o alimento sobe, e o cidadão comum, que nunca ouviu falar do duto em questão, descobre no bolso que a globalização não é tão etérea quanto os manuais de gestão vendem. Ela é feita de aço, de solda e de xeques.
Olha, o interessante é o que não se vê nessa notícia. O que se vê é o preço do barril reagindo. O que não se vê é o resultado de décadas de políticas energéticas ocidentais que sabotaram sistematicamente a produção interna em nome de agendas ambientais desenhadas em salão climatizado, ao mesmo tempo em que se recusaram a admitir a dependência crescente de fornecedores que não compartilham nenhum dos valores que essas mesmas agendas pretendem defender. Fecha refinaria em casa, veta exploração no quintal, e depois se surpreende quando a torneira do outro lado do mundo pinga. É a falácia da janela quebrada travestida de virtude verde.
Quer dizer, a lógica é elementar e ninguém enxerga. Toda vez que um governo decreta que fóssil é feio, subsidia painel solar do amigo do ministro, taxa a bomba de gasolina para financiar consultoria de transição energética e ainda impede que o setor privado abra novo poço, ele não elimina a demanda por petróleo, apenas terceiriza a oferta para regimes autocráticos. O consumo continua igual, o produto continua igual, muda só o dono da torneira. E o dono da torneira, sabendo disso, precifica o serviço prestado à cristandade envergonhada.
Me diz uma coisa, quem lucra com essa fragilidade orquestrada? Siga o dinheiro. Lucra o produtor estatal saudita, que vende mais caro com menos esforço. Lucra o traders de commodities, que ganha na volatilidade. Lucra o burocrata de organismo internacional, que usa cada tremor no barril como argumento para pedir mais fundos, mais reuniões, mais tratados. Lucra o político doméstico, que agora tem desculpa pronta para inflação que ele mesmo fabricou expandindo moeda em casa. Perde o motorista, o caminhoneiro, a dona de casa, o pequeno industrial. Ou seja, perde quem produz e paga quem regula, na velha coreografia em que a lei virou instrumento de pilhagem legalizada.
E não venham com a conversa do choque exógeno imprevisível. Imprevisível é o cocô do cachorro na calçada, não é a paralisação de infraestrutura crítica num regime centralizado que responde por parcela desproporcional do abastecimento mundial. Isso se chama risco estrutural, e foi construído tijolo por tijolo por planejadores centrais convencidos de que sabiam mais do que milhões de agentes de mercado dispersos. O conhecimento estava espalhado, os preços diziam a verdade, e vieram os iluminados fechar poços, proibir fraturamento e taxar hidrocarboneto para descobrir agora que o preço do erro chega pelo correio da bomba de combustível.
A moral da história é constrangedoramente simples e por isso mesmo evitada pelos comentaristas de televisão. Energia é liberdade. Quem produz a própria energia é soberano. Quem depende da energia alheia é súdito. O Brasil, sentado numa das maiores reservas do planeta, com pré sal, com potencial nuclear, com hidrelétricas de sobra, insiste em brincar de transição energética para agradar embaixada estrangeira enquanto poderia estar exportando estabilidade para o mundo. Um duto quebra do outro lado do globo e nossa gasolina sobe, porque abrimos mão de mandar no próprio quintal. Enquanto acharmos que independência energética é assunto de ambientalista, e não de segurança nacional, seguiremos com o pescoço na coleira de qualquer válvula saudita.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.