A Paramount fechou acordo com um grupo de procuradores estaduais para destravar sua fusão com a Warner Bros Discovery, e o noticiário econômico trata isso como se fosse boa notícia. Repare no vocabulário: fechou acordo. Duas empresas privadas querem se juntar, usando capital próprio, com acionistas próprios, produzindo entretenimento que ninguém é obrigado a consumir, e precisam fechar acordo com agentes públicos que não colocaram um centavo no negócio. Quem lê rápido acha que é diligência regulatória. Quem lê devagar percebe que é o velho ritual de submissão em que o capital privado paga tributo ao poder político para ter o direito de existir na forma que escolheu.

Siga o dinheiro e a fantasia da proteção ao consumidor evapora. O procurador estadual que se opõe à fusão não está defendendo a dona de casa que assina streaming; está construindo currículo político, arrecadando concessões que viram cargos, doações de campanha, contratos de compliance para escritórios amigos e aquele memorando triunfal para a imprensa local. A concessão que a Paramount aceitou tem nome técnico e efeito prático conhecido: transferência de valor dos acionistas para uma constelação de intermediários que descobriram um jeito de cobrar aluguel sobre transações alheias. É pilhagem em papel timbrado, e a vítima paga sorrindo porque a alternativa é ter o negócio travado por anos.

O detalhe econômico que ninguém quer discutir é o que se vê contra o que não se vê. O que se vê é o comunicado bonitinho, a concessão anunciada, o procurador de terno posando de guardião do interesse público. O que não se vê é o custo repassado ao assinante na próxima reajuste de mensalidade, o investimento em produção original que foi cortado para financiar a burocracia da fusão, o concorrente menor que não tem caixa para pagar esse pedágio e por isso jamais tentará uma consolidação parecida, e a inovação que morre no berço porque cada movimento estratégico virou negociação política. A conta chega, sempre chega, e nunca no bolso de quem cobrou.

Existe uma tese pitoresca de que esse tipo de crivo regulatório protege a concorrência. É o contrário matemático do que acontece. Quanto mais denso o labirinto de aprovações estaduais, federais, antitruste, de dados, de conteúdo, mais só as gigantes conseguem atravessá-lo. O pequeno estúdio independente não tem departamento jurídico com trezentas cabeças para negociar concessões com cinquenta procuradorias. O resultado prático da regulação supostamente antimonopólica é, ironicamente, um mercado onde só sobrevivem quem tem cacife político para pagar o pedágio. A regra que promete impedir monopólio é a mesma regra que constrói o monopólio.

E há uma dimensão cultural que os balanços não capturam. A fusão em si é um sintoma da concentração midiática, é verdade, mas a resposta correta não é dar mais poder ao Estado sobre o que se produz e distribui; é abrir concorrência, tirar barreira de entrada, permitir que mil produtoras floresçam sem precisar de bênção de nenhum procurador. O que está sendo desenhado aqui é o oposto: um oligopólio negociado, licenciado, tutelado, onde o Estado se torna sócio informal de cada movimento estratégico das grandes empresas de mídia. Quem controla o dinheiro do estúdio, cedo ou tarde, controla o roteiro. E não é preciso muita imaginação para saber que tipo de roteiro sobrevive quando o roteirista precisa passar pelo crivo do governador.

No fim do dia, a manchete deveria ser outra. Não é Paramount fecha acordo com estados. É Paramount paga propina legalizada para ter permissão de fazer negócio próprio com dinheiro próprio. A tradução importa, porque enquanto o cidadão for treinado a chamar isso de regulação sadia, o pedágio só vai encarecer. Toda vez que o poder político descobre que consegue cobrar para deixar o capital privado respirar, ele cobra de novo, mais caro, com mais desculpas nobres. E o assinante do streaming vai pagar a conta achando que está assistindo a um filme.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.