A CTO da Pearson anunciou que a empresa estuda montar uma plataforma para certificar agentes de inteligência artificial, dando ao mundo a boa nova de que agora até software vai precisar de diploma. A companhia, que ganhou fortuna vendendo apostilas caras para escolas públicas e universidades cativas, descobriu que o próximo balcão lucrativo não é ensinar humano nenhum, é carimbar máquina. É preciso admirar a coreografia: quem passou décadas terceirizando a formação de professores agora quer terceirizar também a validação dos robôs que vão substituí-los.

O argumento oficial vem embrulhado no papel de presente de sempre, aquele discurso de responsabilidade, confiança, segurança, governança, palavras bonitas que servem para justificar qualquer pedágio. Só que ninguém pediu esse selo. Ninguém, em canto algum do mercado, acordou hoje angustiado porque seu agente de IA não tem diploma reconhecido pela Pearson. O que existe é uma empresa vendo o rio subir e correndo para construir a ponte antes que alguém passe a nado de graça. É a lógica do cartório aplicada ao século XXI, com a diferença de que o tabelião medieval pelo menos precisava de pena e tinteiro.

Siga o dinheiro e a peça se explica sozinha. A Pearson perde receita porque estudante cansou de pagar oitocentos dólares num livro que o ChatGPT resume em trinta segundos. O modelo antigo, aquele em que a editora cobrava aluguel eterno do conhecimento humano, está ruindo. Então a saída é reencenar o mesmo espetáculo com atores novos: se não dá mais para cobrar do aluno pela versão impressa da fórmula de Bhaskara, cobra-se do desenvolvedor pela versão certificada do agente que explica Bhaskara. O produto muda, o esquema não.

Há também um detalhe delicioso que ninguém no comunicado quer nomear. Quem certifica define o padrão, e quem define o padrão manda no mercado. Foi assim com as agências de rating antes de 2008, foi assim com as certificadoras ambientais depois, foi assim com toda gorda burocracia privada que descobriu que credibilidade vendida por metro dá mais lucro que o produto original. A Pearson não quer competir com desenvolvedores de IA, quer virar juíza deles. E juiz que também é dono do estádio raramente apita direito.

Vale lembrar que essa história vai desembocar, com a naturalidade de rio que segue a inclinação do terreno, na regulação estatal. Primeiro a certificação é voluntária, um selinho simpático para diferenciar os bonzinhos. Depois vira exigência de compliance corporativo, porque nenhum diretor jurídico quer explicar ao conselho por que contratou agente sem carimbo. Por fim, algum burocrata de Bruxelas ou de Brasília abraça a ideia como sua, transforma em lei, e pronto, criou-se mais uma barreira de entrada que os grandes pagam sorrindo e os pequenos não conseguem transpor. A inovação vira privilégio de quem tem departamento jurídico.

O mais irônico é que tudo isso é anunciado com cara de vanguarda tecnológica, como se estivessem inventando a roda. Não estão. Estão reinventando a corporação de ofício, aquela invenção genial da Idade Média que impedia sapateiro sem licença de vender sapato, mesmo que o sapato fosse melhor. Levou séculos para o mundo se livrar daquilo, e agora, sob o pretexto de proteger a humanidade de robôs perigosos, prepara-se o retorno triunfal do mesmo arranjo. Só que desta vez o guildmaster usa terno, tem ações listadas em Londres e fala em governança responsável. O verniz é novo, o esquema é antiquíssimo, e quem paga a conta, como sempre, é o consumidor que jamais foi consultado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.