A Pennant International, listada em Londres e especializada em soluções de treinamento para defesa, anunciou que tomou emprestado 600 mil libras de um de seus próprios acionistas. A operação foi apresentada com aquele tom asséptico de comunicado ao mercado, como se fosse rotina, como se fosse coisa de gente grande. Só que não é. Quando o próprio acionista precisa entrar de calção e financiar a empresa que ele mesmo comprou papel, o sinal amarelo já virou vermelho e ninguém quer olhar para o painel.

Olha, existe uma diferença abissal entre uma empresa saudável que capta no mercado a juros competitivos e uma empresa que passa o pires dentro da própria mesa do conselho. No primeiro caso, alguém sem envolvimento emocional analisou risco, garantia, fluxo de caixa e decidiu que valia a pena emprestar. No segundo, o sujeito que emprestou é o mesmo que perde se a empresa quebrar, e portanto não está fazendo análise, está fazendo cirurgia paliativa no próprio patrimônio. Chamar isso de captação é como chamar transfusão de sangue de refeição balanceada.

Me diz uma coisa: por que os bancos não emprestaram? Por que os fundos que costumam olhar pequenas listadas em Londres passaram batido? A resposta está no que ninguém quer dizer em voz alta, ou seja, o dinheiro anônimo, aquele que não conhece o dono e não tem vínculo afetivo com a marca, calculou o risco e disse não. O dinheiro do acionista, que já está dentro do barco, calculou o mesmo risco e disse sim, porque a alternativa era ver o barco afundar com ele dentro. Esses dois "sim" e "não" contam a mesma história, e o leitor atento entende que a diferença entre operação financeira e resgate disfarçado costuma ser exatamente esta.

Existe uma cortina de fumaça permanente em torno desse tipo de arranjo, e a cortina se chama governança. Vão dizer que houve aprovação de comitê, que os termos são de mercado, que a taxa de juros reflete condições comerciais normais. Talvez reflita mesmo, no papel. Mas o preço nunca conta a história toda quando as duas pontas da mesa dormem na mesma cama. O mercado livre funciona porque o comprador e o vendedor estão em lados opostos do interesse; quando estão do mesmo lado, o preço vira ficção contábil, e ficção contábil é a matéria-prima de todo escândalo corporativo dos últimos cem anos.

E aqui entra a parte que o pequeno investidor, o coitado que comprou ação da Pennant pensando em dividendo e crescimento, precisa entender. Se o acionista majoritário empresta hoje a 600 mil libras, amanhã ele converte em ação a preço camarada, e depois de amanhã o minoritário descobre que a fatia dele encolheu sem que ninguém tenha pedido licença. Chama-se diluição, e é o mecanismo mais elegante já inventado para transferir riqueza dos passivos para os ativos dentro de uma mesma companhia. O empréstimo de hoje é a diluição de amanhã, e quem não enxerga isso pagou caro pela aula.

Sobra a pergunta que ninguém na sala do pregão quer fazer em voz alta, ou seja, o que a Pennant vai fazer com essas 600 mil libras que o mercado inteiro se recusou a colocar na mesa? Se fosse investimento com retorno claro, o banco teria aparecido. Se fosse capital de giro sazonal, existiriam linhas específicas. Sobrou o bolso do dono, e o bolso do dono só entra quando o restante do mundo já saiu. A notícia é curta, o comunicado é técnico, mas a mensagem, para quem lê nas entrelinhas, é longa e desconfortável.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.