Há um comércio próspero e barulhento nas esquinas da alma moderna, e ele vende a mesma mercadoria adulterada desde que o primeiro sacerdote descobriu que homem aflito paga bem. O produto se chama sentido da vida, embrulhado em celofane colorido, com selo de qualidade emitido por gurus de camiseta apertada, coaches certificados por eles mesmos, palestrantes de aeroporto e teólogos de plantão. O consumidor entra na loja carregando o peso legítimo de sua própria existência e sai carregando um manual, uma pulseira, um curso online de doze módulos e a certeza reconfortante de que basta seguir os passos. Duas semanas depois, o vazio volta, mais fundo, porque agora ele carrega também a suspeita humilhante de ter sido enganado.
Existiu, em algum momento da história intelectual, um flash de lucidez brutal quando alguns homens perceberam que o sentido não vem de fábrica. Não está escrito no útero da mãe, não desce do céu num pergaminho, não é entregue pelo carteiro do partido, da igreja ou da universidade. O sujeito nasce cru, sem manual de instruções, e essa é justamente a notícia insuportável que a civilização inteira gastou séculos tentando esconder. Porque um homem que sabe que precisa construir o próprio sentido é um homem incontrolável. E gente incontrolável dá prejuízo aos donos do balcão.
Repare no arranjo. Ministérios inteiros existem para dizer ao cidadão o que ele deve valorizar, quais causas abraçar, quais bandeiras vestir na próxima temporada moral. Currículos escolares dedicam mais horas a doutrinar sobre o propósito coletivo do que a ensinar a criança a somar frações. Redes sociais entregam, de graça e em tempo real, um cardápio infinito de indignações prontas, paixões terceirizadas, opiniões pré-fabricadas que o usuário adota como se fossem suas e defende com ferocidade de quem nunca examinou aquilo por dez segundos. É a mesma lógica do subsídio: alguém paga com a moeda mais cara que existe, que é a atenção e o tempo de vida, para que outros faturem em influência, votos, verba pública e engajamento monetizado.
A pergunta lógica, aquela que corta como bisturi, é simples e não admite fuga. Se o sentido da vida fosse mesmo um pacote pronto disponível em algum lugar, por que dois mil anos de pregação, um século de psicanálise, três décadas de autoajuda e uma enxurrada de podcasts motivacionais não resolveram a angústia de ninguém? Porque a angústia não é bug, é característica estrutural. É o preço da liberdade de ser alguém em vez de coisa. E quem promete tirar essa angústia está vendendo, na melhor das hipóteses, um analgésico. Na pior, uma coleira.
O truque mais antigo do poder consiste em convencer o rebanho de que existe um pastor legítimo, um projeto maior, uma missão histórica em cujo altar vale a pena imolar a própria vida miúda. Foi assim que se justificaram cruzadas, revoluções, planos quinquenais, guerras humanitárias e programas sociais que produzem clientela em vez de resolver o problema que alegam combater. Toda vez que alguém aparece dizendo ter descoberto o sentido definitivo para a sua existência, verifique o bolso do sujeito, a agenda dele e a folha de pagamento de onde ele vive. Vai encontrar o de sempre.
A saída, se é que existe, não está no balcão de nenhuma loja. Está no gesto silencioso e impopular de fechar a porta, apagar a luz do consultório dos vendedores de propósito e sentar diante do próprio espelho para fazer as escolhas que ninguém pode fazer por você. Dá trabalho, dá medo, não rende curtidas e certamente não paga imposto sobre a felicidade adquirida. Mas é a única mercadoria que ninguém consegue confiscar, taxar ou regular. E talvez seja por isso, precisamente por isso, que tantos poderosos preferem que você continue procurando fora aquilo que só se fabrica dentro.
Com informações do O Antagonista. A análise e opinião são do O Algoz.