O ING soltou mais uma projeção sobre o par EUR/USD, e o rebanho de analistas correu para replicar a tese como se fosse revelação divina. A instituição holandesa aposta em euro mais fraco frente ao dólar nos próximos meses, e as mesas de operação de meio mundo ajustam posições, os fundos rebalanceiam carteiras, os comentaristas de televisão repetem o script. Ninguém, absolutamente ninguém, se dá ao trabalho de fazer a pergunta que interessa: o que exatamente está sendo comparado quando se compara euro e dólar hoje?

Olha, a comparação entre duas moedas fiduciárias infladas é o exercício mais elegante de autoengano coletivo que o século produziu. É como debater qual dos dois barcos afunda mais devagar enquanto ambos têm o casco furado. O Banco Central Europeu passou uma década inteira com juros negativos, comprou títulos como se fossem figurinhas, financiou governos falidos do sul europeu com dinheiro criado do nada e agora finge que a inflação foi culpa da guerra, do gás, do clima, de qualquer coisa menos da própria impressora. O Federal Reserve fez exatamente a mesma coisa, só que em escala maior e com marketing melhor. O resultado é que o poder de compra do trabalhador comum foi triturado nos dois continentes, mas os relatórios seguem falando de "estabilidade cambial" com cara séria.

Quer dizer, quando o ING projeta o EUR/USD indo para tal ou qual patamar, o que está realmente dizendo é que aposta em qual dos dois emissores vai imprimir mais no próximo trimestre. É uma corrida ao fundo do poço, e o vencedor recebe o troféu da "moeda forte" apenas por ter afundado um pouco menos rápido que o rival. Enquanto isso, o ouro sobe, o bitcoin sobe, os imóveis em cidades sérias sobem, e qualquer ativo que os bancos centrais não conseguem imprimir subiu de forma consistente contra as duas moedas. Isto não é coincidência estatística. É o mercado, na sua sabedoria dispersa, gritando o que os relatórios oficiais se recusam a admitir.

Me diz uma coisa, quantas vezes na última década esses modelos de projeção cambial acertaram os grandes movimentos? A resposta honesta é constrangedora. Erraram a pandemia, erraram a inflação de 2021 e 2022, erraram o ciclo de juros do Fed, erraram a resiliência do dólar em 2024, erraram a crise bancária regional americana. Mas o ritual continua, porque o mercado precisa de sacerdotes que expliquem o inexplicável, e os bancos de investimento precisam justificar as taxas cobradas dos clientes que perderam dinheiro seguindo as recomendações anteriores. Siga o dinheiro e você vai encontrar sempre o mesmo circuito: os que emitem, os que intermediam, os que taxam, e no fim da fila, o pobre coitado que trabalha, poupa e vê a poupança evaporar.

A verdade que ninguém do lado oficial vai admitir é que o próprio conceito de "taxa de câmbio entre moedas fiduciárias" é uma ficção elegante para esconder o roubo silencioso da inflação. Numa ordem monetária sã, você não precisaria de mil analistas para prever se o euro vai valer 1,05 ou 1,10 dólares. O valor da moeda seria ancorado em algo real, escasso, não produzível por decreto burocrático. Foi assim durante séculos, funcionou, gerou o maior acúmulo de capital produtivo da história humana. Trocamos aquilo por um sistema onde comitês de doutores decidem quanto sua poupança vale amanhã, e chamamos isso de progresso.

Enquanto o ING publica suas projeções e o mercado se agita com décimos de centavo, o cidadão europeu comum vê a conta do supermercado subir mês a mês, o americano de classe média não consegue mais comprar uma casa com um salário só, e os dois governos seguem gastando o que não têm, financiados por bancos centrais que compram a própria dívida em nome do "estímulo". A cotação do EUR/USD é a espuma. A onda por baixo é a destruição sistemática do valor da moeda em nome dos que vivem próximos à impressora. O resto é enfeite para analista preencher relatório de sexta-feira.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.