O Peru estendeu a mão, a Índia enfiou a dela no bolso e ficou olhando o horizonte. Faz meses que Lima aguarda Nova Délhi responder à contraproposta de um acordo de livre comércio, e o silêncio indiano é tão eloquente quanto qualquer não. Enquanto isso, ministros de ambos os lados se fotografam sorrindo em painéis internacionais falando sobre "aprofundar laços" e "explorar sinergias", vocabulário diplomático que traduzido do burocratês significa exatamente nada. O peruano quer vender cobre, quinoa e uva. O indiano quer proteger seu produtor rural doméstico, que é gigantesco, politicamente organizado e capaz de derrubar governo. Fim da história. Todo o resto é encenação.

Olha, tem uma coisa engraçada nesse ritual do "livre comércio via acordo bilateral". Se dois países querem comerciar livremente, basta que cada um remova suas próprias barreiras. Ponto. Não precisa contrato de trezentas páginas, não precisa comitê intergovernamental, não precisa que dezenas de burocratas voem em classe executiva para Genebra decidir quantos por cento de tarifa vai sobrar sobre soja em grão versus soja moída. O que se chama de "acordo de livre comércio" quase nunca é livre comércio, é comércio administrado, com listas de exceções que ocupam mais páginas do que o próprio texto principal. É o Estado dizendo quem pode vender o quê, quando e para quem, num arremedo de mercado que na prática funciona como cartório.

E aí é hora de seguir o dinheiro. Quem ganha com a demora indiana? O agricultor indiano subsidiado, que não quer competir com a produção peruana mais barata. Quem paga? O consumidor indiano, que fica pagando mais caro pelo que come, e o produtor peruano, que não consegue vender. Quem lucra com o próprio processo negocial? Escritórios de advocacia comercial internacional, consultorias de lobby, associações setoriais que existem justamente para pressionar por exceções na letra miúda do acordo. Cada tarifa mantida é um favor concreto a um grupo específico, financiado pelo público difuso que nunca soube que estava pagando. O sujeito comum vê "negociação comercial" no jornal e nem imagina que aquilo é a redistribuição de sua carteira para o bolso de alguém com bom telefone em Brasília, Lima ou Nova Délhi.

Quer dizer, tem também a piada do "reciprocidade". Um lado só abre se o outro abrir. Como se abaixar sua própria tarifa fosse castigo, e não benefício direto ao seu próprio povo. É como se um sujeito recusasse abrir a janela do próprio quarto enquanto o vizinho não abrisse a dele, num dia de calor sufocante. A tarifa que a Índia mantém sobre produtos peruanos machuca primeiro o consumidor indiano; a tarifa que o Peru mantém sobre produtos indianos machuca primeiro o consumidor peruano. Mas a lógica mercantilista, aquela que se pensava enterrada há dois séculos e meio, continua governando as chancelarias como se o mundo ainda operasse com galeões carregados de ouro. Exportar é vitória, importar é derrota, saldo comercial é troféu. Bobagem econômica travestida de sabedoria estadista.

Enquanto Peru e Índia protagonizam essa dança de véus, o cidadão de ambos os lados segue pagando mais caro pelo que consome e recebendo menos pelo que produz, porque o mercado que poderia conectá-los está sequestrado por interesses organizados. O acordo, se sair, virá com tantas exceções que o texto final protegerá exatamente os setores que mais precisariam de competição, e liberará os que já eram competitivos e não precisavam de acordo nenhum. É o padrão universal desses instrumentos: liberam o que já era livre, protegem o que deveria ser exposto, e cobram como se tivessem inventado a roda. E os governos apresentam isso como conquista histórica, quando é apenas mais um capítulo do velho arranjo entre burocracia e clientela.

A resposta da Índia virá quando convier ao lobby agrícola indiano, não quando convier ao consumidor. E o Peru vai aceitar o que sobrar, porque precisa da vitrine política mais do que da abertura real. Livre comércio verdadeiro cabe numa canetada; o que exige comitiva e ano de negociação é sempre outra coisa, geralmente pior.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.