A cena beira o surrealismo, mas está oficializada em ata de conselho: a maior empresa do país, dona de reservas gigantescas, operadora de refinarias, campeã de lucros que fizeram acionistas sorrirem por trimestres seguidos, agora bate à porta do Tesouro pedindo subvenção de um real por litro de diesel. A gigante virou pedinte, e o pedinte tem endereço fixo, o seu contracheque. Chama se subsídio, mas o nome honesto seria transferência compulsória, porque ninguém foi consultado sobre ceder parte do salário para segurar o preço da bomba de um caminhão que não é seu.
Sigamos o dinheiro, que é sempre o exercício mais esclarecedor em qualquer república. O governo anuncia o benefício, a estatal recebe o cheque, o caminhoneiro sente alívio momentâneo no posto, o político tira selfie dizendo que segurou o combustível, e o jornal amanhece com manchete elogiosa sobre sensibilidade social. Falta um personagem nessa fotografia, aquele que assinou o carnê sem saber: o pagador de tributos, que financia o alívio alheio com o próprio arrocho. É o velho truque do prestidigitador, mostra a moeda numa mão enquanto retira do bolso da vítima com a outra, e a plateia aplaude a mágica sem perceber que o mágico é o batedor de carteira.
O argumento oficial vem embrulhado em papel celofane, estabilidade de preços, previsibilidade, proteção ao consumidor final, palavras bonitas que servem para todo tipo de intervenção desde que os romanos fixaram o preço do trigo e produziram fome. Preço tabelado nunca produziu abundância, produziu fila, mercado paralelo, escassez artificial e, invariavelmente, o mesmo problema meses depois em escala maior. Congelar termômetro não cura febre, quebra o termômetro. E quando o remédio custa um real por litro multiplicado por bilhões de litros, o valor da conta médica compra escolas, hospitais, ou simplesmente ficaria no bolso de quem trabalhou para ganhá lo.
Há também a questão institucional, que ninguém quer discutir porque estraga o roteiro. A empresa é de capital misto, tem acionistas privados, distribui dividendos, foi vendida como projeto de eficiência quando convinha, e agora se comporta como repartição pública quando o calendário eleitoral aperta. Ora é gigante do mercado, ora é órfã do Estado, dependendo de qual narrativa dá mais lucro naquele semestre. Essa esquizofrenia societária existe para permitir exatamente o que estamos vendo, socializar prejuízo e privatizar lucro, com o detalhe cruel de que o prejuízo socializado sai do salário de quem nunca recebeu um centavo de dividendo.
O mais saboroso da farsa é o silêncio dos que costumam gritar contra privilégio empresarial. Quando banco recebe socorro, é escândalo. Quando montadora ganha isenção, é entreguismo. Quando petroleira embolsa subvenção bilionária para atender pressão corporativa de uma categoria específica, vira sensibilidade com o trabalhador. A régua muda conforme o beneficiário simpatiza ideologicamente com quem segura o carimbo. Privilégio continua sendo privilégio, ainda que venha vestido com o macacão de operário e distribuído em nome do povo.
No fim, resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta do poder: quem paga e quem recebe. Recebe a estatal, recebe o político que capitaliza a medida, recebe a categoria que ameaçou parar as estradas, recebe o publicitário que venderá a bondade em horário nobre. Paga você, que não foi consultado, não foi ouvido, não teve escolha, e ainda será convocado a agradecer pela generosidade alheia com o seu próprio dinheiro. É a definição mais precisa de assalto legal já inventada, e ela vem carimbada com brasão da república.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.