O petróleo subiu mais de 3% nesta sessão depois que novos ataques atingiram alvos no Oriente Médio e uma reunião crucial sobre a segurança do Estreito de Ormuz foi adiada sem data marcada. Traduzindo do economês para o português: por aquele corredor de água estreito passa cerca de um quinto de todo o petróleo consumido no planeta, e qualquer espirro de tensão ali vira pneumonia no posto de gasolina de Osasco. Mas calma, o ministro da Fazenda vai explicar que a culpa é do especulador, do dólar, do clima, do capitalismo, de qualquer coisa menos da realidade física de que energia é escassa e geografia é destino.

Olha, tem uma coisa cômica em ver a imprensa financeira se surpreender toda vez que isso acontece, como se fosse um raio caído do céu azul. Não é. É consequência direta de décadas de decisões idiotas: satanizar a produção doméstica de hidrocarbonetos em nome de metas climáticas fabricadas em Davos, sabotar refinarias, engessar exploração, e ao mesmo tempo depender de um punhado de regimes teocráticos e autocráticos que controlam os pontos de estrangulamento do fornecimento mundial. Quer dizer, é a receita perfeita para o desastre, e agora que o desastre bate na porta, a mesma turma que fabricou a fragilidade quer nos vender a solução, que envolve, claro, mais impostos e mais controle.

Siga o dinheiro e a paisagem fica ainda mais clara. Quem ganha com barril nas alturas? As grandes petroleiras estatais do Golfo, que embolsam receita extraordinária sem levantar um dedo, e os fundos que apostaram no ciclo de escassez enquanto a narrativa oficial mandava desinvestir em fóssil. Quem perde? O caminhoneiro autônomo, a dona de casa que enche o carrinho no supermercado, o pequeno industrial que vê o custo do frete comer sua margem. É sempre a mesma coreografia: o político anuncia uma agenda global salvadora, o lobista da hora fatura, e a conta chega para quem trabalha e não tem assessor de comunicação para explicar por que agora é diferente.

E tem o detalhe fiscal, que ninguém quer olhar de frente. Petróleo caro significa inflação importada, e inflação importada significa que o Banco Central vai ter que segurar juro alto por mais tempo, o que significa que o serviço da dívida pública brasileira, já em trajetória de suicídio contábil, fica ainda mais insustentável. O governo, que gasta como se dinheiro brotasse em árvore, vai descobrir, mais uma vez, que impressora não fabrica barril de petróleo, não fabrica trigo, não fabrica microchip. Fabrica só uma coisa, que é a corrosão silenciosa do salário de quem não tem indexador para se proteger.

O que não se vê nessa história é o mais grave. Não se vê o investimento em exploração que foi bloqueado nos últimos dez anos por regulação ambiental capturada por ONG estrangeira. Não se vê a refinaria que não foi construída porque o licenciamento leva mais tempo que a vida útil do projeto. Não se vê o motorista de aplicativo que hoje trabalha três horas a mais para pagar o mesmo tanque. Enxerga-se só a manchete, o gráfico vermelho, o especialista de gravata dizendo que "os fundamentos permanecem sólidos". Fundamentos sólidos, sim, aqueles mesmos que colocaram um quinto do petróleo mundial dependendo de um estreito de 33 quilômetros patrulhado por drones iranianos.

Me diz uma coisa: até quando vamos fingir que política energética se resolve com hashtag e conferência climática? A civilização industrial roda a hidrocarboneto, ponto. Enquanto não houver substituto real, e não há, brincar de abolir a oferta é receita garantida para que cada crise geopolítica vire choque inflacionário, cada choque inflacionário vire arrocho monetário, e cada arrocho monetário vire pretexto para mais imposto, mais gasto, mais controle. O mercado livre resolveria isso em cinco anos. O planejamento central promete resolver em cinquenta e entrega, no lugar, um barril a 100 dólares e uma reunião adiada.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.