Existe uma cena que resume, com precisão quase literária, o funcionamento da máquina política brasileira: uma folha de papel contendo nomes de parlamentares e cifras correspondentes, acomodada no interior de uma churrasqueira, à espera do sacramento do fogo. Não foi encontrada num cofre suíço, nem num arquivo criptografado, nem num compartimento secreto atrás do quadro do bisavô. Estava ali, entre o carvão e a grelha, como quem esconde as sobras do domingo antes que a sogra veja. A funcionária, questionada, respondeu com o desembaraço de quem já viveu isso outras vezes: seria queimado. Ponto. Como se estivesse falando de uma nota fiscal amassada, e não de um documento capaz de, em tese, explicar por que certos projetos avançam no plenário enquanto outros morrem na gaveta.
A primeira lição que a cena oferece é semântica. Chame de "orçamento secreto", chame de "emendas de relator", chame de "rateio republicano" ou qualquer eufemismo que a assessoria de imprensa consiga inventar entre um café e outro. A coisa em si não muda de natureza pelo nome que recebe. Uma lista com deputado de um lado e valor do outro tem uma única leitura possível, e nenhum manual de contabilidade criativa vai transformar isso em atividade parlamentar típica. As coisas são o que são, e não o que a nota oficial gostaria que fossem. O papel na churrasqueira não estava lá para ser lido em voz alta na tribuna.
Sigamos, então, a trilha que interessa. Quem paga a conta desses valores anotados a caneta? O sujeito que acorda às cinco da manhã para pegar dois ônibus, que tem trinta por cento do salário evaporado antes mesmo de cair na conta, que paga tributo embutido no arroz, no botijão e no remédio da mãe. Esse é o financiador involuntário do banquete. E quem recebe? Os nomes da lista, ora. Os mesmos que sobem à tribuna para discursar sobre justiça social, sobre austeridade, sobre combate à corrupção, dependendo do figurino da estação. É a beleza do arranjo: o pagador é anônimo, disperso, mudo; o recebedor é específico, organizado e tem microfone. O confisco vem da multidão, o benefício vai para a agenda telefônica.
Há quem ainda se surpreenda. Há quem, diante do episódio, adote o ar de indignação inaugural, como se fosse a primeira vez que o Império Romano descobre que seus procônsules estavam vendendo províncias no varejo. Não é. Toda estrutura que concentra o poder de tirar dinheiro de uns para entregar a outros vai, por lei de gravidade moral, produzir listas em churrasqueiras. Muda o material do papel, muda o combustível, muda o cômodo da casa. Já foi caixa dois em cofre de banco, já foi mala com dólar em avião, já foi cueca com maço. Agora é churrasqueira. A criatividade decorativa se renova, a essência é a mesma desde que o primeiro coletor de impostos descobriu que podia ficar com uma parte.
E aqui está o truque de mágica mais bem executado da democracia representativa contemporânea: convencer o público de que o problema é o político errado, quando o problema é a estrutura que transforma qualquer político, com raríssimas exceções heroicas, em administrador de rateio. Se você entrega a um homem o poder de distribuir bilhões sem contrapartida clara, sem risco pessoal, sem prestação de contas efetiva, o resultado não é uma questão de caráter individual, é uma questão de física social. Coloque açúcar na calçada e não se surpreenda com formigas. Coloque emenda de relator na mesa e não se espante com a lista na churrasqueira.
A funcionária, coitada, virou personagem involuntária de uma tragicomédia nacional. Mas o verdadeiro protagonista continua sendo o cidadão, que amanhã levantará cedo, pagará o boleto, verá a manchete de relance no celular, resmungará "esses políticos" e seguirá em frente, resignado à ideia de que sempre foi assim e sempre será. Não é verdade. Sempre foi assim onde se aceitou que fosse. E vai ser assim enquanto o pagador continuar tratando o assunto como espetáculo alheio, e não como o próprio bolso pegando fogo, junto com o papel, dentro daquela churrasqueira.
Com informações da Poder360. A análise e opinião são do O Algoz.