Vinte e quatro armas de fogo. Dezesseis pistolas, cinco fuzis, duas espingardas e um revólver. Este é o acervo bélico encontrado pela Polícia Federal na casa de Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília, preso na quarta fase da operação Compliance Zero. Um arsenal digno de milícia centro-americana, guardado por um sujeito cuja profissão oficial era assinar planilhas e apertar mãos em coquetéis institucionais. A pergunta que se impõe, antes de qualquer moralismo barato sobre o direito de portar armas, é geometricamente simples: banqueiro estatal precisa de fuzil para quê? Contra que inimigo se prepara o executivo de um banco público, que deveria estar preocupado apenas com juros, spread e o próximo bônus?

A resposta incomoda porque é evidente. Quem administra dinheiro alheio em regime de monopólio geográfico, sob o guarda-chuva de um ente federativo, e ainda se envolve em operações do naipe do caso Master, não teme ladrão comum. Ladrão comum quer celular, relógio, joia da esposa. Ladrão comum não invade a casa de banqueiro para conversar sobre balanço patrimonial. Fuzil não se compra para ladrão de esquina; fuzil se compra para quem chega organizado, em número, com propósito. Ou seja, para gente do mesmo ramo, do outro lado da mesa, quando o acordo desanda. A dimensão do arsenal denuncia a dimensão do medo, e a dimensão do medo denuncia a natureza real do negócio.

Existe uma ironia estrutural que precisa ser desenterrada. O mesmo Estado que trata o produtor rural, o comerciante honesto e o pai de família como suspeitos permanentes ao pedir registro de uma única arma calibre 38, entrega as chaves de um banco a um cidadão que monta paiol em casa sem que ninguém, em anos, tenha estranhado. O caseiro que guarda uma espingarda velha para espantar onça responde processo. O presidente do banco estadual guarda cinco fuzis e é convidado para jantares em Brasília. A régua não é a lei; a régua é o crachá. Quem tem o crachá certo, tem o arsenal. Quem não tem, apanha na fila da Polícia Federal por causa de um cartucho vencido.

Sigamos o dinheiro, que é onde a fábula desmonta. Bancos estaduais não são bancos, são cofres políticos disfarçados de instituição financeira. Servem para financiar a base aliada, comprar apoio, patrocinar aventuras esportivas e culturais que rendem foto e voto, e para acomodar quadros do partido em cargos com salários que o mercado privado jamais pagaria. O caso Master, aquele carrossel de títulos podres empacotados como se fossem ouro, prova o óbvio: quando o risco é privatizado nos lucros e socializado nos prejuízos, o executivo estatal opera com a temeridade de um adolescente com o cartão do pai. E adolescente com cartão do pai, quando a farra acaba, precisa se armar, porque os credores da vida real não aceitam desculpa institucional.

Há ainda a camada mais gorda desse presunto, aquela que a imprensa oficial jamais toca. Um arsenal daquele porte, guardado por anos, mantido sem alarde, sugere circuito de proteção que atravessa polícias, cartórios, colegas de armaria e amigos de despacho. Ninguém compra vinte e quatro armas sozinho, no escuro, sem uma rede que valide, transporte, licencie e faça vista grossa. O banqueiro preso é a ponta do iceberg; abaixo da linha d’água estão os despachantes, os delegados coniventes, os políticos que indicaram, os colegas de diretoria que sabiam e calaram. A prisão de um serve exatamente para preservar os cinquenta que continuam livres, num ritual antigo de bode expiatório que Roma já conhecia quando entregava um senador ao circo para acalmar a plebe faminta.

No fim, resta a pergunta que abre e fecha qualquer análise honesta sobre esse tipo de caso: quem paga e quem recebe? Paga o contribuinte de Brasília, cujo imposto sustenta o banco que quebra, o salário que engorda, o arsenal que intimida. Recebe uma casta que se acha soberana, blindada por lei, por cargo e agora, literalmente, por fuzil. E enquanto o debate público se ocupa em discutir se o cidadão de bem pode ou não ter uma pistolinha na gaveta, a verdadeira aristocracia armada do país despacha em gabinete com ar-condicionado, guardando calibre pesado em armário de mogno. O rei está nu, e desta vez, além de nu, está armado até os dentes.

Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.