A cena tem algo de tragicômico. Um domingo qualquer, a Polícia Federal se dá ao trabalho de comunicar solenemente ao presidente do Supremo que, sim, é tecnicamente capaz de enviar uma cópia espelhada dos dados extraídos do celular de Daniel Vorcaro, o ex-banqueiro dono do Banco Master. Reparem no absurdo protocolar da frase, porque nela mora o país inteiro. Uma corporação equipada com peritos, servidores e orçamento bilionário precisa avisar formalmente que consegue apertar um botão de copiar e colar. Nenhum cidadão comum recebe esse tipo de deferência quando o Estado quer seus dados, o Estado simplesmente pega. Quando o alvo veste terno de banqueiro e tem procuradores caros, o rito muda, a linguagem amacia, e o Judiciário passa a negociar como se estivesse pedindo licença para entrar na própria casa.
A pergunta imediata é a mais desconfortável, e por isso mesmo a menos feita nos telejornais. Quem paga essa festa e quem embolsa a conta? O Banco Master não brotou do chão. Cresceu na sombra morna do dinheiro público, empilhando títulos precatórios, capturando fundos de pensão, negociando com estatais, alimentando a engrenagem em que o rentismo veste a fantasia de inovação financeira. Cada real que passou por ali tem um sobrenome, e vários desses sobrenomes carregam mandato, cargo comissionado ou beneficiário final escondido em offshore. O celular apreendido não é um pedaço de eletrônica, é um catálogo de contatos que, aberto na hora errada para as pessoas certas, transforma amizade em delação e delação em ruína.
É por isso que o gesto burocrático de anunciar publicamente a capacidade técnica de duplicar os dados vale mais do que parece. Trata se de um recado transversal, dirigido a quem entende. O Supremo, que costuma decidir com uma mão e vazar com a outra, agora avisa que a cópia pode circular. A cópia que circula é a cópia que se multiplica, e a cópia que se multiplica é a cópia que aparece no lugar mais inconveniente possível, geralmente na véspera de uma votação, de uma indicação, de um acerto qualquer. Não existe apreensão de celular de banqueiro que morra em silêncio. O que existe é o cronograma de conveniência de quem ficou com a chave do cofre digital.
Convém lembrar como esses arranjos funcionam desde que o mundo é mundo. Todo regime que concentra poder acaba concentrando também informação, e toda informação concentrada vira moeda de chantagem. Foi assim nos gabinetes de czares, nos arquivos de repúblicas bananeiras, nas gavetas de ditaduras de toda cor. O detalhe brasileiro, sempre mais barroco, é que a chantagem aqui se faz com toga, com timbre oficial, com jargão de devido processo legal. O confisco de dados vira instrumento de barganha, e a barganha, quando bem sucedida, se traveste de justiça. Ninguém vai preso, ninguém devolve nada, e o contribuinte, esse eterno pagador silencioso, financia a novela do começo ao fim, seja mantendo a máquina que investiga, seja socorrendo os bancos que quebram, seja engolindo a inflação que resulta do socorro.
O Banco Master, aliás, é um manual vivo de como o capitalismo de compadres opera nos trópicos. Lucros privatizados enquanto a montanha crescia, prejuízos empurrados goela abaixo do sistema quando a mágica ruiu, resgates arranjados às pressas para que ninguém precisasse encarar o espelho. O ex-banqueiro é, no fim das contas, mais uma peça de um tabuleiro em que os grandes jogadores raramente perdem de verdade. Perdem a manchete, perdem o cargo, às vezes perdem o passaporte, mas o patrimônio segue amealhado em camadas societárias que só o próprio dono conhece. E o celular, esse pequeno objeto que hoje pesa mais do que qualquer cofre suíço, guarda o mapa desse tesouro em forma de mensagens apagadas mal apagadas.
Resta ao leitor comum a única atitude digna que ainda sobra, a desconfiança metódica. Quando o poder anuncia publicamente que vai partilhar informação sensível entre si mesmo, não está prestando contas, está negociando um cessar fogo interno. O espetáculo da transparência serve para esconder a opacidade do acordo. Enquanto a plateia se emociona com o vaivém de ofícios, o roteiro verdadeiro é escrito em conversas que nenhum perito extrai, porque acontecem em jantares, em antessalas, em ligações que ninguém grava. O celular de Vorcaro vai contar uma parte da história. A parte que interessa, como sempre, continuará em silêncio, protegida pelo mesmo Estado que finge investigá la.
Com informações da Revista Oeste. A análise e opinião são do O Algoz.