A Pfizer anunciou que vai compartilhar com o Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos os preços que pratica com governos estrangeiros, dentro de um acordo com a Casa Branca para alinhar o valor dos medicamentos ao chamado most favored nation, o preço mais baixo cobrado em países desenvolvidos. Em troca, a empresa ganha três anos de trégua tarifária, canal expresso na FDA e acesso privilegiado a compras federais. Chamam isso de negociação dura. É, na verdade, uma dança marcada, com passos combinados nos bastidores e um sorriso ensaiado para a câmera.

Quer dizer, o governo americano descobriu que os europeus pagam mais barato pelos mesmos remédios e resolveu forçar o mesmo desconto para si. Parece justo, à primeira vista. Só que ninguém pergunta o que acontece do outro lado da equação. Se a Pfizer é obrigada a nivelar por baixo o preço americano, ela vai simplesmente subir o preço em todos os outros mercados que antes subsidiavam a pesquisa americana, ou vai cortar a pesquisa. Não existe milagre contábil. O que se vê é o preço americano caindo. O que não se vê é o brasileiro, o mexicano, o polonês pagando mais amanhã pelo mesmo comprimido, ou não tendo o comprimido de amanhã porque a molécula deixou de ser desenvolvida.

E aqui está o truque mais bonito do arranjo. Uma empresa privada acaba de aceitar que um burocrata em Washington saiba, em tempo real, quanto ela cobra de cada cliente no mundo inteiro. Isso não é regulação, é participação societária sem participação acionária. O Estado americano virou sócio oculto da Pfizer, com direito a olhar o livro-caixa e vetar preço. Em troca, a empresa recebe barreira alfandegária contra concorrente, aprovação acelerada e o carimbo de fornecedor preferencial do maior comprador de remédio do planeta. Siga o dinheiro e você vai encontrar o de sempre, o pagador de imposto americano financiando um monopólio que agora tem selo oficial.

O nome bonito para isso, na história econômica, é capitalismo de compadrio. Empresa grande e governo grande de mãos dadas, dividindo o mercado como quem divide baralho. Quem sobra fora? A farmácia pequena que não tem lobista em Washington. A startup de biotecnologia que ia lançar um genérico e agora vai enfrentar um concorrente com passe livre na FDA. E, principalmente, o paciente que acredita que o preço dos remédios caiu por bondade da Casa Branca, quando na verdade ele apenas mudou de bolso, do bolso do consumidor direto para o bolso do contribuinte, que também é ele mesmo, só que anestesiado pela distância entre o boleto do IR e a bula do medicamento.

A ironia final é que tudo isso será vendido como vitória do povo americano contra as farmacêuticas gananciosas. É o roteiro clássico. O governo cria o problema, o preço dos remédios subiu justamente porque a FDA é a agência mais lenta e cara do mundo, a patente americana é a mais longa, o sistema de intermediários é o mais entulhado de regulação, e depois o mesmo governo se apresenta como salvador oferecendo uma solução que aprofunda o problema. Cada intervenção nova exige a próxima, cada distorção pede outra distorção para consertar, e no fim ninguém sabe mais qual era o preço real de nada, porque nenhum preço é mais real, todos são políticos.

Mercado livre de verdade não precisa de acordo com presidente, não precisa de trégua tarifária, não precisa de acesso privilegiado a comprador estatal. Precisa de concorrência, de patentes razoáveis, de agência reguladora que aprove em meses e não em décadas, e de consumidor livre para escolher. O que se assinou na Casa Branca não é o começo de nada novo, é a formalização de um velho arranjo em que os grandes se protegem dos pequenos usando o Estado como sócio silencioso. O comprimido pode até ficar mais barato na etiqueta. A liberdade, essa, sai cara.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.