O Pinterest anunciou o lançamento de anúncios de busca visual voltados ao marketing de performance, e a notícia foi vendida como avanço tecnológico neutro, quase filantrópico, uma benfeitoria digital para conectar consumidor e produto. Traduzindo do dialeto do Vale do Silício para o português: a empresa descobriu que, quando você aponta a câmera para um sapato, um sofá ou um vestido, aquele gesto vale dinheiro, e agora esse dinheiro será leiloado para o maior lance. O olhar humano, que até ontem era território íntimo, virou inventário publicitário. E o mais impressionante é que ninguém está gritando.

Quer dizer, o negócio funciona assim. Você fotografa um objeto, o algoritmo identifica textura, formato, cor, marca, contexto, e imediatamente entrega ao anunciante que pagou mais caro pela categoria correspondente. Não é mais o anúncio que persegue a palavra digitada, é o anúncio que persegue a retina. A promessa de eficiência é real, ninguém discute, o problema é o pequeno detalhe filosófico de que a matéria-prima dessa eficiência é a curiosidade humana convertida em ativo negociável antes que o próprio curioso perceba que foi convertido. Chamam isso de inovação porque escândalo dá manchete ruim.

Olha, siga o dinheiro por trinta segundos e a névoa se dissipa. Pinterest não ganha vendendo pinos, ganha vendendo você aos anunciantes; os anunciantes ganham convertendo desejo pré-consciente em pedido de cartão; os fundos que sustentam o Pinterest ganham quando a métrica de engajamento sobe; e o usuário, que se acha o cliente, é na verdade o produto embalado com laço. O modelo é o mesmo dos últimos vinte anos, apenas mais afiado: cada nova camada de tecnologia empurra o ponto de captura um passo antes na cadeia da atenção. Primeiro foi o clique, depois foi a busca, depois foi o rastro de localização, agora é o olhar. Amanhã será o pensamento, e vão vender como conveniência.

Me diz uma coisa, quem pediu isso? Nenhum consumidor acordou implorando por anúncios visuais de performance. A demanda vem inteira do lado da oferta, do anunciante que quer conversão mais barata, da plataforma que precisa justificar avaliação bilionária, do fundo que exige crescimento trimestral. O usuário é notificado depois, com uma atualização de termos de uso escrita em juridiquês, e o silêncio é interpretado como consentimento. É a velha arte de fabricar uma necessidade que ninguém sentia e depois vender a solução como progresso, e funciona porque o barulho da novidade abafa a pergunta óbvia sobre quem está pagando e com o quê.

E aqui entra a parte que os entusiastas da inovação sempre esquecem de mencionar. Toda tecnologia que reduz o atrito entre desejo e compra também reduz o atrito entre impulso e arrependimento. Uma civilização que treina cada cidadão a comprar aquilo que olhou de relance está construindo consumidores hiperreativos e poupadores extintos, um exército de gente endividada em prestações porque o algoritmo foi mais rápido que o córtex frontal. O visível é o vestido comprado em três cliques; o invisível é a poupança que nunca existiu, a formação de capital que não aconteceu, a família que não pôde trocar de bairro porque o cartão estava travado. Ninguém aparece no gráfico do Pinterest para contar essa parte.

O ponto não é proibir, e nem se trata de sair chamando a Anatel, a Anvisa ou seja lá qual sigla estiver desocupada nesta semana, porque a solução regulatória sempre vira captura e a captura sempre vira privilégio para o grande contra o pequeno. O ponto é lembrar que ferramenta neutra não existe, que toda plataforma cobra em alguma moeda, e que quando a moeda não é dinheiro é atenção, e quando não é atenção é comportamento. O usuário adulto tem o direito de aceitar o trato, desde que saiba que existe trato. O que não pode é continuar fingindo que tudo isso é mágica gratuita enquanto milhares de engenheiros muito bem pagos trabalham em turnos para transformar cada piscada em receita recorrente. Enxergar o preço embutido é o primeiro ato de liberdade num mercado projetado para escondê-lo.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.