A Pirelli aprovou nesta semana um aporte de US$ 1,2 bilhão para ampliar sua fábrica em Rome, na Geórgia, dobrando a capacidade produtiva em solo americano e criando algo em torno de 700 empregos diretos. A cifra sozinha já diz muita coisa, mas o que ela diz de verdade não está no press release da companhia: está no mapa. Uma fabricante italiana, com raízes centenárias na Europa e operação robusta na América do Sul, escolhe o interior da Geórgia como destino do maior cheque industrial da sua década recente. Não é acaso, não é filantropia, não é gratidão a Washington. É cálculo frio de quem precisa entregar retorno a acionistas e sabe ler planilha melhor do que discurso.
Olha, quando o capital escolhe um destino, ele está votando com os pés, e voto de capital não mente porque não tem urna eletrônica no meio. A Geórgia entrega energia elétrica a preços que o industrial paulista contempla como se olhasse o Grand Canyon, oferece um regime tributário estadual que cabe numa página, tem infraestrutura logística que funciona sem novela e, detalhe não menor, garante ao investidor que o contrato assinado hoje vai valer amanhã. Enquanto isso, aqui embaixo, o mesmo investidor precisa decifrar cinco reformas tributárias sobrepostas, adivinhar a próxima medida provisória, rezar para o câmbio, apostar na Selic e ainda pagar consultor para explicar por que a fábrica dele precisa de licença ambiental que demora três anos enquanto o concorrente chinês desembarca pneu no porto de Santos com tarifa de importação em queda livre. Adivinha quem ganha essa corrida.
Vale seguir a trilha do dinheiro, porque ela conta a história completa. A Pirelli não está apenas construindo galpão em Rome; está fugindo de risco geopolítico ligado ao acionista chinês, está se posicionando para atender montadoras americanas que agora exigem cadeia doméstica, está protegendo margem contra tarifa e está aproveitando incentivos federais e estaduais que os Estados Unidos, com toda a sua retórica sobre livre mercado, oferecem com generosidade digna de sheik do petróleo. Ou seja, o país que se apresenta ao mundo como templo do capitalismo pratica um mercantilismo elegante, atrai fábrica pagando com dinheiro público, e ainda assim consegue ser mais competitivo do que economias que se dizem planejadoras porque, no fim, o custo total do ambiente de negócios é menor. É a diferença entre subsídio inteligente, que casa com produtividade, e subsídio brasileiro, que financia ineficiência crônica sob palmas do sindicato.
E aí vem a parte que a imprensa econômica local não vai escrever, porque exigiria coragem. Cada dólar que a Pirelli despeja na Geórgia é um dólar que não foi despejado em Feira de Santana, em Gravataí, em Campinas. Cada emprego criado em Rome é um emprego que o brasileiro não vai ocupar. Cada real de imposto que aquela expansão vai gerar para o tesouro americano é um real que o Brasil deixou de arrecadar porque preferiu manter carga tributária asfixiante, judiciário lento, sindicalismo do século passado e uma classe política convencida de que empresário é vilão que precisa ser domado. O emprego que se vê em Rome tem um irmão invisível, o emprego que não nasceu aqui, e esse irmão invisível é quem paga a conta do nosso protecionismo emocional.
Antes que apareça o economista de plantão pedindo mais BNDES, mais política industrial, mais fundo garantidor, mais reserva de mercado, convém lembrar que o mesmo BNDES já financiou frigorífico, estaleiro, campeão nacional e empreiteira em desgraça, e o resultado dessa engenharia genial está estampado nos autos da Lava Jato e no PIB industrial, que encolheu como camisa de algodão em máquina quente. A doença brasileira não se cura com mais intervenção; cura-se removendo a intervenção que causou a doença. Segurança jurídica, imposto simples, energia competitiva, abertura comercial de verdade e um Estado que pare de escolher vencedor: essa é a receita chata, sem glamour, sem ministro cortando fita, que faz o capital atravessar o Atlântico no sentido inverso. Sem isso, seguiremos exportando oportunidade e importando explicação.
Rome, na Geórgia, uma cidadezinha de sessenta mil habitantes que dificilmente sai nos telejornais, acaba de dar ao Brasil uma aula de economia política que Brasília vai fingir que não ouviu. A moral da história é dura mas simples: capital não tem pátria, tem paciência limitada, e vai onde o tratam como parceiro em vez de suspeito. Enquanto o brasileiro médio for ensinado a odiar quem cria emprego, e enquanto o legislador continuar tratando fábrica como caixa registradora do Estado, cada nova expansão bilionária vai acontecer em algum lugar que fica a nove mil quilômetros daqui. E depois vão dizer que a culpa é do mercado.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.