A ação da Ericsson caiu forte nesta sessão e o mercado, que passou anos fingindo que uma fabricante de equipamento de telecom era a próxima queridinha da nova era digital, agora descobre com espanto que vender antena para operadora endividada em ambiente de juro alto não é exatamente o modelo de negócio dos sonhos. Os relatórios trimestrais mostram encomendas em queda na América do Norte, margens espremidas, operadoras cortando capex, e o coro dos analistas repete o mantra de sempre, que é ciclo, que é sazonalidade, que é reestruturação. Mentira conveniente. O que está caindo não é uma ação, é uma narrativa inteira.

Lembra do 5G? Aquela promessa messiânica de que redes de quinta geração transformariam a economia mundial, viabilizariam carros autônomos, cirurgias remotas, fábricas inteligentes e sabe-se lá que mais utopia tecnocrática? Pois é. Enquanto o dinheiro custava zero, com bancos centrais imprimindo trilhões e forçando taxas negativas em pleno século XXI, operadoras do mundo inteiro se endividaram até o pescoço para comprar equipamento de Ericsson, Nokia e Huawei, erguendo torres que ninguém pediu para entregar velocidade que ninguém precisava. Os governos aplaudiam, subsidiavam, criavam programa nacional disso, plano estratégico daquilo, e a Ericsson via receita explodir como se fosse mérito próprio. Não era. Era efeito colateral do maior experimento monetário da história.

Agora o Fed subiu juro, o BCE subiu juro, o custo do dinheiro voltou à realidade, e as operadoras que se endividaram para bancar o sonho 5G descobriram que o consumidor final continua pagando o mesmo plano de celular de sempre, porque ninguém, absolutamente ninguém, estava disposto a pagar mais caro pela tal revolução. O retorno sobre o investimento nunca apareceu. A demanda prometida era miragem. E quando a operadora corta capex, quem toma na cabeça é o fornecedor de equipamento. Simples assim. A ponta visível é a queda da ação. A ponta invisível são os anos de má alocação de capital que economias inteiras suportaram porque acreditaram que planejador de banco central sabia mais que o mercado.

Siga o rastro. Quem ganhou nessa festa? Os executivos que embolsaram bônus atrelados a receita durante os anos gordos. Os bancos que estruturaram a dívida das operadoras cobrando taxas polpudas. Os governos que venderam espectro em leilões bilionários, entupindo o caixa de curto prazo com dinheiro que na prática saiu do bolso do consumidor via tarifa mais cara. E os fabricantes de equipamento, que faturaram alto empurrando hardware que hoje envelhece nas centrais de comutação. Quem paga a conta agora? O acionista minoritário que comprou Ericsson a preço de tecnologia disruptiva e recebe balanço de commodity industrial em recessão. O trabalhador sueco que vai ser demitido na próxima rodada de reestruturação. E o consumidor final, sempre ele, que continuará pagando a dívida embutida na tarifa mensal por anos.

O detalhe delicioso, para quem gosta de ironia, é que a queda da Ericsson não é anomalia. É correção. É o mercado fazendo tardiamente o trabalho que o dinheiro barato impediu que fosse feito no tempo certo. Cada trimestre ruim de fabricante de equipamento de telecom é um pequeno acerto de contas com a fantasia de que se pode fabricar prosperidade tecnológica imprimindo moeda e obrigando operadora a investir em infraestrutura que o cliente não valoriza. O mesmo filme se repetirá em outras indústrias que engordaram na farra do juro zero, dos veículos elétricos ao streaming, dos data centers de inteligência artificial aos parques eólicos subsidiados. Quem viveu de estímulo artificial morre quando o estímulo acaba.

Talvez, e aqui vai o veneno final, o próximo comitê de política monetária, ao ver Ericsson desabando, resolva que a solução é cortar juro de novo para reanimar o paciente. E aí começa tudo outra vez, com nova bolha, novo hype, nova promessa tecnológica, novo trimestre glorioso, até o próximo estouro. A definição clínica de insanidade continua sendo fazer a mesma coisa esperando resultado diferente, mas os banqueiros centrais, esses, aprendem devagar. O acionista da Ericsson, mais rápido, já aprendeu hoje.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.