A Applied Materials, uma das empresas mais estratégicas do planeta, aquela que vende as máquinas que fabricam os chips que fazem tudo funcionar, viu seus papéis afundarem depois de apresentar números que decepcionaram o mercado e, principalmente, um guidance que soou como confissão. A receita veio abaixo do esperado, o segmento de equipamentos para semicondutores mostrou fôlego curto, a exposição à China continua sangrando por causa das restrições de exportação, e o próximo trimestre foi projetado com uma cautela que, na linguagem cifrada de Wall Street, quer dizer aperte os cintos. O papel caiu, arrastou o setor, e a manchete do dia virou aquilo que todo mundo estava fingindo não ver.

Há aqui uma lição que ninguém quer ensinar em Davos. Nos últimos anos, americanos e europeus decidiram que a solução para a dependência asiática de chips seria despejar centenas de bilhões de dólares em subsídios, incentivos fiscais e planos industriais grandiosos, batizados com nomes pomposos e vendidos como renascimento manufatureiro. O raciocínio era simples e, como quase tudo que é simples em economia dirigida, errado. Se o problema é falta de fábrica, basta o governo pagar a fábrica. Se o problema é concorrência estrangeira, basta proibir a concorrência estrangeira. O resultado dessa engenharia social com verba pública está aparecendo agora, trimestre a trimestre, no balanço das empresas que deveriam ser as grandes beneficiárias.

Quer dizer, o mesmo governo que barrou a Applied Materials de vender suas máquinas mais avançadas para a China, um mercado que respondia por parcela relevantíssima da receita, é o mesmo governo que agora oferece cheques bilionários para compensar o buraco que ele mesmo cavou. Tira com uma mão, devolve com a outra, cobra o imposto do contribuinte no meio do caminho, e ainda pede aplausos pela genialidade estratégica. É a economia da janela quebrada com uniforme de segurança nacional. O que se vê é o anúncio do subsídio na primeira página do jornal. O que não se vê é o mercado consumidor perdido, a cadeia produtiva desarticulada, os empregos que existiriam se o capital tivesse sido alocado por quem sabe alocar capital, que é quem arrisca o próprio dinheiro, não quem gasta o dos outros.

E aí vem a parte que os analistas de banco não escrevem no relatório, porque banco vive de comissão sobre o consenso. Quando o Estado decide qual setor é estratégico, quais empresas vão receber o dinheiro, qual país é inimigo comercial e qual é aliado do mês, o preço deixa de dizer a verdade. E preço que mente é bússola quebrada. A empresa expande capacidade porque o governo prometeu demanda, contrata engenheiros porque o programa federal garantiu financiamento, ergue plantas em lugares que economicamente não fariam sentido, tudo apostando que a promessa política sobreviverá ao próximo ciclo eleitoral. Não sobrevive nunca. E quando o vento muda, quem paga a conta é o acionista minoritário que confiou na narrativa, o trabalhador que se qualificou para uma vaga que evaporou, e o contribuinte que financiou o teatro inteiro sem nunca ter sido consultado.

Olha, é preciso dizer o que ninguém diz. A Applied Materials é uma empresa espetacular, com tecnologia que nenhum planejador central conseguiria replicar em cinco planos quinquenais. O problema não é ela. O problema é o ambiente em que ela é obrigada a operar, um ambiente onde a fronteira entre iniciativa privada e política industrial já não existe, onde o CEO precisa gastar mais tempo em Washington do que em San Jose, onde o próximo balanço depende menos da inovação e mais do humor de um comitê de burocratas em Bruxelas ou de um senador texano em ano eleitoral. Isso não é capitalismo. É corporativismo com etiqueta de livre iniciativa, e o mercado, mesmo distorcido, mesmo drogado de dinheiro público, ainda tem o velho vício de eventualmente mostrar a verdade nos números.

A queda de hoje é apenas o aperitivo. Os mesmos governos que estão inflando as contas com pacotes trilionários de estímulo, dívida pública em níveis de tempo de guerra e impressão monetária disfarçada de política prudencial, vão descobrir em algum momento que não se compra prosperidade duradoura no cartão de crédito das gerações futuras. Chip não é feito de decreto. Fábrica não brota de projeto de lei. E competitividade industrial, aquela de verdade, aquela que produz riqueza em vez de dependência, só nasce onde o empreendedor tem liberdade de errar com o próprio dinheiro e acertar com o próprio talento. Fora disso, é encenação cara, e a plateia, mais cedo ou mais tarde, pede o dinheiro do ingresso de volta.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.