A Celestica subiu forte no pregão de hoje e o motivo é aquele que virou trilha sonora de 2026: mais um contrato gordo ligado à infraestrutura de inteligência artificial, revisão para cima nas projeções, e o rebanho de analistas correndo atrás para elevar preço-alvo antes que o concorrente eleve primeiro. A companhia, que passou décadas sendo uma modesta terceirizada de montagem eletrônica para gigantes de Silício, agora se descobre estrela do setor mais quente da bolsa. Não porque reinventou nada, veja bem, mas porque aparafusa placas em servidores que hyperscalers compram como se não houvesse amanhã. E é aí que a história começa a ficar interessante.
Quer dizer, ninguém em sã consciência olha para o gráfico de uma fornecedora de hardware saltando digamos oitenta por cento no ano e conclui que o mundo descobriu, do nada, uma nova fonte de produtividade real. O que aconteceu foi outra coisa, mais antiga e mais suja. Anos de juros artificialmente esmagados no chão criaram um oceano de capital sem lugar para ir. Esse capital precisava de uma narrativa, encontrou a inteligência artificial, e agora despeja centenas de bilhões em data centers, GPUs, cabos, refrigeração líquida e, sim, nas pequenas Celesticas do mundo que montam a tralha física. Um boom construído sobre crédito distorcido não é prosperidade, é festa com o cartão dos outros.
Olha, siga o dinheiro e você verá o mesmo padrão de sempre. Quatro ou cinco hyperscalers americanos anunciam capex anual próximo de meio trilhão de dólares combinados. Esse dinheiro pinga em cadeia: para a fabricante de chip, para a montadora de servidor, para a terceirizada canadense, para o fornecedor de conector, para a mineradora de cobre. Cada elo comemora receita recorde e margem em expansão. O que ninguém pergunta em alto e bom som é uma coisa simples e constrangedora: onde está o retorno econômico final que justifica esse capex? Quem, no fim da linha, paga por tudo isso gerando lucro real, não crédito fiscal, não subsídio, não capital de risco queimando dinheiro de fundo de pensão?
Me diz uma coisa. Já se viu isto antes. Ferrovias no século dezenove, quando cada quilômetro de trilho parecia justificar qualquer preço até o pânico bancário lembrar todo mundo que trilho sem carga não paga cupom. Rádio nos anos vinte, quando fabricantes de válvula subiam feito foguete até 1929 lembrar que válvula não é receita. Fibra óptica no fim dos anos noventa, quando quem fornecia o vidro esticado embaixo do oceano virou queridinho do Nasdaq, seis meses antes de virar pó. Sempre o mesmo enredo: quando o dinheiro é gratuito, tudo que fica na cadeia de suprimento da mania do momento parece um negócio maravilhoso. Até parar de parecer.
E há um segundo problema, mais discreto e mais grave, que os relatórios em inglês elegante das corretoras evitam com carinho paternal. A concentração de clientes. Uma fornecedora que depende de três ou quatro compradores gigantes não tem negócio, tem refém. No dia em que um hyperscaler decidir internalizar montagem, mudar de parceiro, ou simplesmente cortar capex porque descobriu que os modelos de linguagem não geram receita proporcional à conta de luz, a Celestica não corrige, ela desmorona. É a lei mais antiga da economia real, aquela que nenhum banco central consegue revogar por decreto: quem não controla o próprio destino não vale o múltiplo que o mercado lhe atribui na euforia.
Nada disso significa que a empresa seja ruim, que o setor não tenha valor, que a inteligência artificial seja fraude. Significa que a diferença entre tecnologia útil e bolha financeira nunca esteve no produto, esteve sempre no preço. E o preço, hoje, foi decidido não por milhões de investidores individuais avaliando fluxo de caixa descontado, foi decidido por trilhões de dólares de liquidez que precisavam de qualquer coisa em que se agarrar depois que autoridades monetárias passaram quinze anos negando que sua impressora tinha consequência. Toda festa termina. E quando essa terminar, o pessoal que celebra hoje o novo topo histórico da Celestica vai jurar, de mão no coração, que era impossível prever.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.