A Devon Energy amanheceu no verde forte e, como sempre, os analistas de terno bem cortado correram atrás de uma explicação sofisticada quando a resposta era vergonhosamente simples. O barril de WTI voltou a operar acima do patamar que os planejadores de escritório juraram que não voltaríamos a ver, a companhia entregou geração de caixa livre acima do consenso, recomprou ações, apertou custo por barril na Bacia de Delaware e lembrou o mercado de uma verdade que anda proibida em painel de ESG: petróleo dá lucro, e lucro atrai capital. Ponto. O resto é literatura para justificar planilha.
Olha, é curioso o tempo em que vivemos. Passamos uma década inteira ouvindo que o petróleo era o novo carvão, que o pico da demanda estava logo ali na esquina, que fundo soberano decente já não podia sequer olhar para o setor sem levar carão de consultor de sustentabilidade. Enquanto isso, no mundo real, a China queimou recorde histórico de combustível fóssil, a Índia dobrou refino, a Europa descobriu que aquecer casa no inverno com boa intenção não funciona, e os Estados Unidos, sob o novo governo, destravaram permissões que estavam dormindo em gaveta federal. O resultado está no gráfico da Devon hoje. O que se via era a narrativa; o que não se via era a demanda real, teimosa, implacável, subindo enquanto os discursos desciam.
Me diz uma coisa: quem pagou a conta desses anos de guerra ideológica contra o setor? O consumidor, sempre. Cada dólar que a Devon não pôde investir em novo poço porque o regulador atrasou licença, cada projeto de duto engavetado por ativista com advogado pro bono, cada barril que deixou de sair do Permian por causa de meta arbitrária de emissão, tudo isso virou preço de gasolina no posto, virou inflação persistente, virou fatura de luz salgada para a dona de casa em Ohio e para o motorista de aplicativo em São Paulo. A energia mais cara do mundo é a energia que o governo tentou substituir por decreto. E o mercado, quando é deixado em paz por cinco minutos, corrige o absurdo com a violência de quem estava segurando represa.
Siga o dinheiro e a história fica ainda mais interessante. Enquanto os fundos verdes subsidiados pelo contribuinte europeu amargam quedas de dois dígitos e demitem gestores, os operadores de shale americanos, disciplinados pela quase-morte de 2020, viraram máquinas de retornar capital ao acionista. A Devon distribui dividendo variável, recompra papel abaixo do valor intrínseco e opera com dívida líquida que faria inveja a companhia de saneamento. Não há mágica, há capitalismo funcionando quando deixam funcionar. E cada vez que o setor mostra esse tipo de resultado, fica mais evidente que a chamada transição energética, do jeito que foi vendida, era essencialmente um esquema de transferência de renda do pagador de imposto para o lobista de painel solar chinês, com selo de virtude como brinde.
Há uma lição maior escondida nesse pregão bovino da Devon, e ela vale para qualquer setor perseguido por moralistas de gabinete. Nenhum comitê, por mais bem intencionado, sabe mais do que milhões de pessoas decidindo o que aquecer, o que dirigir, o que produzir. Quando o preço sobe, o capital vai; quando o capital vai, a oferta aparece; quando a oferta aparece, o preço se equilibra. Esse mecanismo, que qualquer feirante entende, escapa sistematicamente ao burocrata que acha que basta assinar uma portaria para o sol brilhar à noite e o vento soprar sob demanda. A realidade cobra juros, e cobra em dólar.
Fica o registro para o leitor guardar na gaveta. Toda vez que ouvir um ministro anunciar o fim do petróleo, compre petroleira. Toda vez que ler manchete de agência internacional decretando que o carbono acabou, cheque o preço do barril. E toda vez que um regulador prometer um mundo novo pago com dinheiro alheio, pergunte-se quem, exatamente, vai ficar rico com aquele novo mundo. A Devon subindo hoje não é notícia de bolsa; é a realidade batendo palma para quem teve coragem de continuar furando o chão enquanto o mundo aplaudia moinho de vento.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.