Sessão aberta, painel piscando verde, e lá vai a Dmall subindo como foguete de festa junina. O noticiário econômico corre atrás do fato consumado com aquela pressa característica de quem precisa explicar o inexplicável antes que o leitor comece a pensar sozinho. Aparece então a ladainha de sempre, o balanço trimestral acima do esperado, o rumor de fusão, o volume atípico, a expectativa de corte de juros, a onda de otimismo com o setor, qualquer muleta narrativa serve para justificar o que já aconteceu. Chama-se isso de análise, mas é apenas legenda posta depois da foto.
Quem acompanha esse tipo de movimento sabe que ação não sobe sozinha, sobe porque alguém está comprando, e alguém está comprando porque leu, ouviu, viu, intuiu ou soube antes. A pergunta interessante nunca é por que subiu hoje, é quem sabia ontem. E aqui o roteiro se repete com a monotonia de novela mexicana, o pequeno investidor entra no topo achando que descobriu uma jóia, o fundo grande já embolsou a diferença e sai pela porta dos fundos enquanto o analista de televisão explica com gráfico colorido que o papel tem fundamento. Fundamento tem, sim, o fundamento de quem entrou primeiro.
Há ainda a variável que ninguém coloca no relatório, e que é justamente a que mais pesa. Enquanto o Banco Central segura a taxa lá em cima e o Tesouro rola dívida como quem empurra sujeira para debaixo do tapete, cada notícia de possível afrouxamento monetário faz o dinheiro represado transbordar para a bolsa. Não é riqueza sendo criada, é liquidez procurando esconderijo. A festa do papel de hoje é a ressaca de amanhã, e o boteco que serve a bebida é sempre o mesmo, com carimbo oficial e cheiro de tinta fresca. Quando o crédito é artificial, o rali também é.
Convém lembrar também do teatro regulatório em volta do varejo brasileiro, dos incentivos setoriais, dos financiamentos subsidiados por banco público, das renúncias fiscais concedidas com a mão esquerda para depois cobrar com a direita via tributo indireto do consumidor. Uma companhia que floresce nesse ambiente não está apenas performando no mercado, está performando no balcão de favores. Isso não invalida o negócio, mas explica por que o mesmo papel que hoje sobe amanhã despenca ao primeiro suspiro de mudança política. Empresa que depende de humor de ministro não é ativo, é refém.
E enquanto o pregão comemora, o brasileiro comum, aquele que trabalha, paga imposto e olha a bolsa pela janela do noticiário da noite, continua achando que investir é privilégio de rico. Não é. É apenas que o sistema foi montado para que o preço da entrada seja alto e a informação chegue tarde. Democratizar o mercado seria democratizar a moeda, e democratizar a moeda seria tirar da autoridade monetária o brinquedo mais poderoso que ela tem. Ninguém no poder quer isso, e por isso ninguém propõe isso a sério.
Então quando perguntarem por que a Dmall subiu hoje, responda com outra pergunta, quem vendeu para quem, com qual dinheiro, sob qual juro e com qual informação. A resposta honesta constrangeria meia dúzia de gente importante, e é exatamente por isso que ela nunca aparece na manchete. O que se vê é o gráfico verde, o que não se vê é a mão que o pintou.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.