As ações da Dollarama subiram forte nesta sessão depois que a varejista canadense entregou resultados trimestrais acima do esperado, com vendas comparáveis crescendo em ritmo que envergonha concorrentes tradicionais, elevação de guidance para o ano fiscal e margem operacional que faria qualquer CFO de supermercado convencional chorar no banheiro. Analistas de bancos correram para elevar preço-alvo, o papel abriu em alta de dois dígitos percentuais e a manchete festiva já corre pelos terminais. Só que ninguém está fazendo a pergunta que interessa: por que diabos uma rede que vende tralha por preço fixo, num país do G7, está crescendo como startup de tecnologia?
A resposta é desagradável e por isso ninguém quer dar. A Dollarama não está ganhando porque inventou algo, não está ganhando porque descobriu um nicho, não está ganhando porque o consumidor canadense acordou apaixonado por chaveiro de plástico. Está ganhando porque a classe média do Canadá empobreceu de forma acelerada nos últimos anos, o custo de vida em Toronto e Vancouver virou piada internacional, o aluguel come metade do salário líquido e a família que antes fazia compras no supermercado tradicional agora entra na loja de preço único para levar o que dá. O que a bolsa comemora como sucesso empresarial é, na verdade, o retrato radiografado de um povo que perdeu poder de compra.
E aqui a coisa fica interessante para quem sabe seguir a trilha do dinheiro. Quem imprimiu trilhões durante a pandemia sob o pretexto de salvar empregos? O banco central. Quem inflou o preço dos imóveis a ponto de tornar a casa própria uma miragem para toda uma geração? A política de juros artificialmente baixos por uma década. Quem financiou déficits públicos consecutivos que injetaram moeda numa economia com oferta travada? O mesmo governo que agora aparece de terno bem cortado dizendo que a inflação é culpa da Rússia, do clima, da ganância corporativa, dos supermercados, do vizinho e do cachorro do vizinho. Nunca da impressora. Jamais da impressora.
O que se vê é a ação subindo e o investidor comemorando. O que não se vê é o funcionário que antes comprava carne no açougue e hoje leva salsicha de origem duvidosa embalada em plástico chinês. O que não se vê é o aposentado que trocou o remédio de marca pelo genérico mais barato porque o resto do orçamento evaporou. O que não se vê é a criança que ganha o brinquedo de três dólares em vez do brinquedo de vinte porque a mãe faz a conta antes de sair de casa. A prosperidade da loja de preço único é sempre, em qualquer país, em qualquer época, o termômetro da miséria disfarçada.
Os austríacos já haviam avisado, embora ninguém queira ouvir avisos que envolvem responsabilidade fiscal. Toda expansão monetária artificial produz um boom que parece milagre e um bust que parece azar. O boom veio nos ativos financeiros, nas casas caras, nas ações que multiplicaram e nos bônus milionários de Wall Street. O bust está chegando devagar, pela porta dos fundos, na forma de gente comum trocando o supermercado pelo dollar store. E quando o economista de banco aparecer amanhã na televisão explicando que a Dollarama é uma tese defensiva com exposição ao consumidor resiliente, saiba que resiliente é o eufemismo elegante para empobrecido.
A ironia final é que o mesmo governo que causou o empobrecimento agora vai propor programa de transferência de renda para socorrer os pobres que ele mesmo fabricou, financiado por mais imposto e mais emissão, alimentando o ciclo que produzirá a próxima onda de clientes para a Dollarama. É a serpente monetária mordendo o próprio rabo enquanto os assessores de comunicação vendem a cena como dança. O Brasil, que segue o mesmo receituário há décadas com resultados igualmente previsíveis, deveria olhar para o gráfico dessa ação canadense como se olha para o espelho de manhã: sem gostar do que vê, mas reconhecendo que aquilo é você.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.