As ações da Empire Company subiram hoje e a manada financeira já tem sua liturgia pronta: relatórios de analistas, gráficos de candle, previsões de preço-alvo, aquela conversa técnica que serve para disfarçar o fato mais simples do universo econômico. Empresa de supermercado no Canadá não sobe porque as pessoas descobriram, da noite para o dia, que precisam comer mais. Sobe porque alguém está movendo dinheiro, e dinheiro sempre vem de algum lugar. A pergunta que o noticiário econômico nunca faz, porque fazer é ficar sem convite para o próximo evento do banco, é a mais óbvia de todas: de onde veio o combustível dessa fogueira?

Olha, o mecanismo é sempre o mesmo, e ele não muda desde que inventaram o banco central. O governo precisa de dinheiro, o governo não quer aumentar imposto na cara do eleitor porque perde eleição, então o governo pede para o banco central "estimular a economia", eufemismo poético para "imprima dinheiro que a gente inventa uma justificativa depois". Esse dinheiro novo não cai do céu igualmente sobre todos. Ele entra pelo topo do sistema, passa primeiro pelas mãos de bancos, fundos, grandes players institucionais, e só depois, muito depois, chega ao sujeito que enche o carrinho no Sobeys. Quando chega, já perdeu poder de compra. Os primeiros da fila compraram ações, imóveis, ativos reais. Os últimos da fila compraram inflação.

Empire é dona de rede de supermercado, e aqui o paradoxo é delicioso: a mesma inflação que corrói o salário do consumidor infla a receita nominal do varejo alimentar, porque preço sobe, ticket médio sobe, faturamento nominal sobe, e o analista de plantão escreve que a empresa "demonstrou resiliência". Resiliência coisa nenhuma. A empresa está apenas repassando o roubo monetário para a prateleira, e o mercado premia isso com múltiplo mais generoso. É a alquimia perversa do capitalismo de compadrio monetário: quem está próximo da impressora ganha, quem está longe paga, e todo mundo finge que isso é livre mercado funcionando.

Existe ainda a segunda camada, aquela que aparece nos releases institucionais com palavras como "eficiência operacional" e "otimização de portfólio". Traduzindo do corporativês para o português: cortaram gente, fecharam loja marginal, renegociaram contrato de fornecedor no muque. Nada disso é criminoso, e boa parte é até virtuoso do ponto de vista da alocação de capital. O problema é vender enxugamento como crescimento, corte como conquista, sobrevivência como visão estratégica. O supermercado não descobriu uma nova forma de produzir alface. Descobriu uma forma nova de espremer margem num ambiente onde o custo do dinheiro está artificialmente distorcido.

E aqui é onde a coisa fica cínica. Toda vez que o banco central sinaliza que vai afrouxar juros, ou que vai "pausar o aperto", ou qualquer dessas coreografias que a imprensa financeira trata como se fossem o oráculo de Delfos, os mercados sobem em bloco, indiscriminadamente. Boas empresas sobem, empresas medíocres sobem, empresas zumbis que só sobrevivem porque o dinheiro barato paga a dívida delas também sobem. Isso não é mercado descobrindo valor. Isso é distribuição estatal de riqueza disfarçada de rally. A alta de hoje da Empire pode ter razões operacionais legítimas, e provavelmente tem em parte, mas ela vem embalada no mesmo pacote de todas as altas do setor, e esse pacote foi montado em prédio de banco central, não em corredor de supermercado.

Me diz uma coisa: se o preço de um ativo sobe porque a empresa produz mais e melhor, isso é riqueza criada, é civilização avançando. Se sobe porque imprimiram moeda e ela entrou primeiro na conta de quem já era rico, isso é confisco maquiado. Os dois movimentos aparecem no mesmo gráfico, com a mesma cor verde, e o pobre coitado que vê o noticiário à noite acha que a economia está bombando. Está bombando para quem chega primeiro. Para o resto, a conta chega no caixa do supermercado, e aí ninguém dá entrevista comemorando.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.