As ações da EVE Energy subiram com força porque a empresa anunciou novos contratos gigantescos de armazenamento estacionário de energia, aqueles baús de lítio que guardam eletricidade para quando o sol se põe e o vento para de soprar. O mercado, que costuma ser lento para entender o que é estratégico e rápido para entender o que é lucrativo, finalmente juntou as duas coisas. Cada megawatt-hora contratado é um contrato de dependência assinado com Pequim por mais duas décadas, e a bolsa está apenas precificando o óbvio com atraso de dez anos.

Convém lembrar como chegamos aqui. Nos anos 2000, o Ocidente decidiu, em nome do meio ambiente e da eficiência, que fabricar coisas sujas era assunto para chineses. Encheu-se a boca com economia de serviços, hub de inovação, capital intelectual e outras poesias de consultor. Enquanto isso, a China construía, tijolo por tijolo, subsídio por subsídio, a cadeia inteira do lítio, do cobalto, do níquel, do grafite e da fabricação de células. Hoje controla mais de setenta por cento da produção global de baterias, e empresas como a EVE são apenas o rosto visível de um projeto de Estado que ninguém votou, ninguém debateu e ninguém teve coragem de enfrentar.

A ironia é deliciosa e o preço é amargo. Os mesmos governos europeus e americanos que impuseram metas de descarbonização a golpe de canetada, sem consultar quem pagaria a conta, agora descobrem que dependem da ditadura que dizem odiar para cumprir a transição energética que dizem amar. Cada painel solar instalado em Berlim, cada carro elétrico rodando em Los Angeles, cada fazenda eólica na costa portuguesa alimenta o caixa de Shenzhen. Chama-se isto de política industrial reversa: o planejador central destrói a indústria local em nome de uma virtude abstrata e, em seguida, precisa comprar a virtude concretizada do concorrente geopolítico. Quer dizer, o subsídio verde ocidental virou, na prática, subsídio verde chinês.

Siga o dinheiro e a fotografia fica ainda mais desagradável. Os incentivos fiscais que Washington e Bruxelas distribuem para veículos elétricos e sistemas de armazenamento acabam, na ponta, financiando compras de componentes chineses porque simplesmente não há alternativa em escala. Cada dólar de crédito tributário americano vira, algumas notas fiscais depois, receita da EVE, da CATL, da BYD. O contribuinte da Pensilvânia paga imposto para o cidadão da Califórnia comprar um Tesla que roda com célula chinesa, cuja margem financia laboratórios que produzirão a próxima geração de baterias que o americano também terá que comprar. Não é livre-comércio, é dependência subsidiada, e todo mundo em Washington sabe disso e finge que não.

O que a alta da EVE ensina, portanto, não é sobre lítio, nem sobre curva de demanda, nem sobre múltiplo esperado de lucro. Ensina sobre o preço real de terceirizar a economia física em nome de fantasias pós-modernas. Uma civilização que perdeu a vontade de sujar as mãos e resolveu ganhar a vida apenas gerenciando planilhas descobre, cedo ou tarde, que quem fabrica o motor do mundo dita as regras do mundo. E o Brasil, sentado sobre uma das maiores reservas de lítio do planeta em Araçuaí, faz o quê? Discute alíquota. Faz seminário. Cria grupo de trabalho interministerial. Enquanto isso, a EVE sobe, o rótulo verde se paga em yuan, e alguém, em algum lugar, ainda vai ter a coragem de dizer que o problema é o mercado.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.