A Lennar disparou nesta sessão e os analistas correram para vender a narrativa de sempre, dados de habitação melhores que o esperado, expectativa de corte de juros, catalisador técnico, sentimento comprador. Tudo verdade, tudo maquiagem. A questão que ninguém quer fazer é mais simples e mais desconfortável, por que uma das maiores construtoras dos Estados Unidos precisa que o banco central americano prometa dinheiro barato para que suas ações subam? Se o negócio fosse sólido nos próprios pés, o preço da ação não dependeria do humor de doze burocratas reunidos em Washington decidindo o custo do crédito para trezentos e trinta milhões de pessoas.

O que se vê é a Lennar valorizando. O que não se vê é a família americana que já não consegue comprar a primeira casa porque o preço do imóvel foi inflado por uma década de juros artificialmente baixos que jogaram capital especulativo em cima do tijolo. O que não se vê é o poupador que financiou essa festa ganhando juros reais negativos por anos. O que não se vê é o jovem casal que hoje paga aluguel para o fundo de investimento que comprou o bairro inteiro com dinheiro impresso. A ação sobe, a manchete celebra, e a classe média some do mapa. Isto não é prosperidade, é transferência de riqueza dos que produzem para os que estão perto da torneira monetária.

Vale seguir o dinheiro com calma. Quem mais lucra com a promessa de corte de juros? As construtoras alavancadas, os fundos imobiliários que se financiaram no crédito farto, os bancos que empacotam hipoteca, os executivos que recebem em opções de ação e vendem no topo. Quem paga? O aposentado que vê a poupança derreter, o assalariado que sente o preço da casa duplicar, o pequeno empresário que compete com gigante subsidiado pela taxa básica. É o velho arranjo, socializar o risco, privatizar o lucro, e chamar isso de livre mercado quando é exatamente o oposto, é capitalismo de compadrio operado a partir da mesa de política monetária.

A construção civil americana virou um termômetro invertido, quando ela vai bem, é porque a moeda vai mal. Cada boom imobiliário desde os anos setenta seguiu o mesmo roteiro, expansão de crédito artificial, euforia especulativa, preços descolados da renda real, estouro doloroso. Dois mil e oito foi ontem e ninguém aprendeu nada, ou pior, aprenderam que sempre haverá resgate, sempre haverá impressora, sempre haverá contribuinte para segurar a queda. Enquanto essa certeza existir, o ciclo se repete, e cada nova rodada custa mais caro do que a anterior.

Me diz uma coisa, faz sentido uma economia em que o principal indicador de saúde de uma construtora não é a demanda espontânea das famílias por moradia, mas a expectativa de que o banco central vai injetar liquidez outra vez? Isto não é mercado, é dependência química. A Lennar é uma boa empresa dentro das regras do jogo que existem, o problema não é ela, o problema é o jogo. Um sistema em que empresas produtivas só prosperam quando o dinheiro apodrece é um sistema condenado a produzir bolhas cada vez maiores e crashes cada vez mais catastróficos.

A festa de hoje é o veneno de amanhã, e quem vai pagar a conta, como sempre, não está tomando champanhe em Wall Street.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.