A Lumentum não é nome de startup queridinha de podcast de tecnologia, é uma fabricante de componentes ópticos que ninguém no bar comenta, e é justamente por isso que suas ações estão voando. O mercado percebeu, com aquele atraso simpático de quem só enxerga o óbvio depois que o vizinho ganha dinheiro, que os data centers de inteligência artificial precisam de transceptores ópticos de alta velocidade para não engasgar transmitindo os terabytes que sustentam cada consulta ao chatbot da moda. E adivinhe quem faz isso? Pois é. A ação sobe, a manchete vem, e o analista de banco descobre a roda.
Mas olha, a história aqui não é a Lumentum. A história é o padrão. Toda vez que se instala uma febre especulativa, alguém vende a pá. Na corrida do ouro californiana do século dezenove, os mineradores morriam de disenteria enquanto o sujeito que vendia calça jeans virava império. Na bolha das ferrovias inglesas do século dezenove, os investidores ficavam pendurados em trilhos que iam a lugar nenhum enquanto os fabricantes de aço faturavam de qualquer jeito. Na bolha das pontocom, a Cisco vendeu roteador para um monte de empresa que faliu antes de dar retorno. Agora é a vez dos componentes ópticos, dos chips, dos cabos, das GPUs. A picareta muda, o esquema não.
Quer dizer, quem paga essa festa toda? Aí está a pergunta que ninguém quer fazer no programa de tevê da manhã. Os juros artificialmente baixos que o banco central americano manteve por mais de uma década criaram um oceano de liquidez procurando destino. Esse oceano encontrou a inteligência artificial e transformou uma tecnologia genuinamente interessante numa mania financeira desconectada de fluxo de caixa. Cada dólar que hoje engorda o múltiplo da Lumentum, da Nvidia, das gigantes da nuvem, é um dólar que veio da expansão de crédito, não da poupança real de alguém que abriu mão de consumir hoje para investir amanhã. E crédito sem poupança por trás tem nome, e o nome é ilusão contábil.
Siga o dinheiro e a coisa fica mais interessante. As hiperscalers, essa gente da nuvem, anunciam investimentos de centenas de bilhões em capex para o ano que vem, e o mercado aplaude como criança em circo. Mas de onde vem esse capex? Parte do caixa operacional, parte de dívida barata, parte de subsídios sutis que o governo americano despeja no setor via Chips Act e afins. Ou seja, o contribuinte financia indiretamente a farra, o Federal Reserve mantém a torneira aberta o suficiente para que ninguém sinta o frio, e o rentista global compra o papel achando que está fazendo capitalismo. Não está. Está fazendo compadrio tecnológico com verniz de Silicon Valley.
Isso não quer dizer que a Lumentum é picaretagem, nem que a inteligência artificial é fumaça. A tecnologia é real, os transceptores são real, a demanda dos data centers é real. O problema é que numa economia com moeda honesta, sem essa dopamina monetária de dez anos, o crescimento do setor seria orgânico, medido, distribuído no tempo, e os preços das ações refletiriam produtividade genuína, não expectativa alucinada. O que se vê é a alta de vinte por cento numa sessão. O que não se vê é o pequeno poupador americano cujo dinheiro perdeu poder de compra para financiar essa gastança, e o trabalhador cuja hipoteca ficou impagável porque o mesmo banco central que inflou o Nasdaq inflou o preço da casa dele.
Toda expansão artificial de crédito termina do mesmo jeito, e ninguém precisa de bola de cristal para saber disso, basta abrir qualquer livro de história econômica que não tenha sido escrito por funcionário de banco central. Vai chegar o dia em que os data centers construídos em excesso vão ficar meio vazios, em que os múltiplos vão se comprimir, em que o transceptor óptico vai continuar sendo um belo produto sem que isso justifique cotação de foguete. Aí virão os discursos sobre resgatar o setor estratégico, proteger empregos, garantir a soberania digital. Traduzindo: o contribuinte paga a conta duas vezes, uma no boom e outra no bust. Enquanto isso, quem vendeu picareta na hora certa já embarcou no iate.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.