As ações da Micron Technology subiram forte no pregão de hoje, e o motivo é tão banal quanto revelador: a demanda por memória DRAM e NAND, aquelas peças minúsculas que fazem seu celular funcionar e os data centers de inteligência artificial girarem, está esmagando a oferta. Analistas de Wall Street revisaram preços-alvo para cima, projetaram margem gorda para os próximos trimestres, e o rebanho fez o que rebanho faz quando enxerga cheiro de lucro: correu atrás. O mercado, esse organismo que os intelectuais adoram desprezar como se fosse cassino, acabou de dar mais uma aula gratuita de economia real para quem quiser prestar atenção.
Repare no que aconteceu de verdade. Enquanto governos ocidentais gastavam bilhões subsidiando fábricas de chip com decreto, propaganda e cerimônia de inauguração cheia de político sorrindo, quem entregou o produto foi a empresa que vinha investindo capital privado há décadas, apanhando na crise, cortando gente na baixa do ciclo, aguentando o tranco sem esperar papai Estado resolver. A alta de hoje não é fruto de política industrial, é resultado de gente que arriscou dinheiro próprio numa aposta que poderia ter virado pó. Ganharam porque acertaram, e acertaram porque tinham pele em jogo. É uma diferença civilizacional que ninguém em Brasília consegue processar.
E aqui entra a parte que o jornal econômico brasileiro médio jamais vai escrever: por que a Micron sobe e a estatal brasileira de tecnologia, quando existe, some do mapa? Porque memória de computador é um bem cujo valor não pode ser decretado por portaria, ele é definido por milhões de compradores no mundo inteiro, em tempo real, através de preços que nenhum burocrata seria capaz de calcular nem com dez supercomputadores. Cada vez que um planejador tenta substituir esse mecanismo por planilha ministerial, o resultado é o mesmo: fila, escassez, produto ruim, corrupção. A história é tão previsível que já cansa.
Tem outra camada, mais desconfortável ainda. A alta da Micron acontece exatamente no momento em que Washington despeja centenas de bilhões via Chips Act, aquele programa que foi vendido como salvação da indústria americana e que, na prática, virou festival de captura regulatória, com lobista de Silicon Valley fazendo fila na porta do Departamento de Comércio. Boa parte do que hoje é comemorado como vitória do capitalismo americano é, na verdade, transferência de renda do contribuinte para o acionista. O contribuinte paga o subsídio via imposto e inflação, o acionista embolsa a valorização, o político faz discurso na CNN. Siga o dinheiro e a coreografia fica evidente.
O detalhe que os defensores do subsídio nunca querem debater é o custo invisível. Cada dólar que o governo americano direcionou para a Micron e concorrentes foi um dólar retirado de outro empreendedor, de outra pesquisa, de outra oportunidade que jamais existirá porque o capital foi confiscado antes de nascer. A janela quebrada da política industrial: enxergamos a fábrica nova reluzente, não enxergamos as mil pequenas empresas que morreram no berço porque o crédito ficou caro, o imposto ficou pesado e o Fed inflacionou tudo para bancar a farra. A conta chega, sempre chega, apenas demora.
Fica a lição de hoje, gratuita para quem quiser aprender. Silício vale porque alguém precisa dele para produzir algo que outra pessoa quer comprar voluntariamente. Nenhum decreto cria essa cadeia, nenhum ministério a substitui, nenhuma cota inclusiva a acelera. A Micron subiu porque, apesar de todo o barulho ideológico do nosso tempo, o mundo ainda funciona segundo a lei mais antiga da economia: quem entrega valor real fica com o troco. O resto é liturgia.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.