Myer subiu forte hoje na bolsa australiana e o mercado, que passa metade do tempo esperando a próxima falência do varejo tradicional, teve que engolir o papel com prêmio. A notícia por trás do salto é banal e reveladora ao mesmo tempo: sinais de que a fusão com a divisão de vestuário da Premier Investments está entregando o que prometia, corte de custos redundantes, margens menos anêmicas e um guidance que, pela primeira vez em muito tempo, não parece pedido de desculpas travestido de projeção. O investidor que estava short cobriu, o fundo que estava de fora entrou, e o papel andou. Nada de mágico, apenas gente respondendo a incentivos reais em vez de narrativa.
Vale olhar o que ninguém está olhando. Enquanto colunistas de economia repetem há uma década o obituário do varejo físico, a Myer sobrevive não porque descobriu o iluminismo digital, mas porque parou de fingir que era outra coisa. Loja de departamento não morre por causa da Amazon, morre por causa de executivo que acha bonito reinventar a marca a cada dois anos, contratar consultoria de McKinsey para descobrir que o cliente gosta de preço bom, e queimar caixa em aventuras de e-commerce que competem com quem tem escala mundial. O consumidor australiano continua entrando na loja quando a loja tem o produto que ele quer pelo preço que ele topa pagar. Revolucionário, eu sei.
A fusão com o braço de moda da Premier é interessante justamente porque é o oposto do que a cartilha ESG-consultocrata recomenda. Em vez de pulverizar recursos em cinquenta iniciativas de propósito, concentraram operação, fecharam sobreposição, cortaram custo administrativo duplicado e passaram a operar como quem precisa dar lucro no fim do trimestre porque acionista cobra. Consolidação horizontal antiga, dessas que o manual de faculdade de administração dos anos noventa ensinava antes de a moda virar startup de assinatura de meia. Funcionou lá, continua funcionando aqui, e o mercado, que finge ser inovador mas é o mais tradicionalista dos animais, premiou.
Enquanto isso, no país de baixo, o varejista brasileiro continua reclamando de tudo, do câmbio, da Shein, do juro, da carga tributária, e tem razão em quase todas as reclamações, com um detalhe: também gasta o que não tem em rebranding, em campanha institucional para agradar identitário no Instagram e em programa de fidelidade que ninguém entende. Depois estranha quando a ação apanha. A Myer australiana está mostrando, sem querer, que o caminho do meio é chato, previsível e lucrativo: entender quem é seu cliente, entregar o que ele quer, controlar custo com obsessão de dono, e parar de rezar para a próxima onda de consumo salvar o balanço.
O recado que fica para quem investe é ainda mais desconfortável. Não existe setor morto, existe gestão morta. O varejo físico está fadado ao fracasso do mesmo jeito que o rádio estava fadado ao fracasso quando inventaram a televisão, e a televisão estava fadada ao fracasso quando inventaram o streaming. Tudo continua vivo, só que menor, mais focado e servindo a quem ainda quer aquilo. Quem operar com essa humildade sobrevive, e eventualmente até sobe na bolsa num dia qualquer, para o desespero dos analistas que já tinham despachado a empresa para o cemitério das teses fáceis.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.