As ações da Nucor derreteram no pregão desta quinta-feira depois que a companhia veio a público cortar sua projeção de lucro para o próximo trimestre, atribuindo o tombo à queda nos preços do aço, à demanda anêmica de setores industriais e a margens que estão sendo espremidas por todos os lados. Curioso, não? A mesma empresa que foi apresentada ao contribuinte americano como beneficiária estratégica das tarifas de importação, o grande símbolo da reindustrialização, agora aparece descendo a escada de olhos vendados. Quer dizer, ergueram uma muralha inteira para proteger o quintal e o quintal está secando mesmo assim.
Olha, ninguém que entenda minimamente como funciona uma cadeia produtiva se surpreende com isso. Quando você encarece o insumo básico da economia real, o aço, por decreto, você não está criando prosperidade, está redistribuindo miséria. O fabricante de máquinas paga mais caro, o construtor paga mais caro, a montadora de automóveis paga mais caro, e no fim da fila o cidadão paga o pato em cada geladeira, em cada carro, em cada prego que compra. A conta invisível é sempre a mais cara, porque ela não aparece em manchete nenhuma, mas some do bolso de todo mundo em silêncio.
E tem mais. A tese oficial era de que o protecionismo abriria espaço para a indústria doméstica florescer, contratar, investir, expandir. Só que a demanda não obedece a decreto presidencial. Se o cliente final não tem poder de compra, se o crédito artificialmente barato dos últimos anos gerou uma bolha de investimento em setores que agora precisam digerir capacidade ociosa, nenhuma proteção alfandegária resolve. O que se vê é o preço do produto subindo, sim, mas o volume vendido desabando junto, e o resultado líquido é o balanço da Nucor que caiu na cabeça dos acionistas hoje. A tarifa é boa para quem cobra, péssima para quem depende do consumidor final estar vivo.
Me diz uma coisa: se o setor precisa de tarifa para sobreviver, ele é competitivo ou é dependente químico do favor estatal? Porque essa é a pergunta que ninguém em Washington quer responder. A siderurgia americana passou décadas viciada em proteção, cada administração aumentando a dose, e o resultado é uma indústria que não consegue andar sem muleta e que ainda por cima quebra quando a muleta engrossa. É o velho arranjo em que o lobista almoça com o senador, o senador aprova a tarifa, a empresa aplaude, o consumidor engole e o economista de plantão vem à televisão explicar que aquilo tudo é geopolítica de longo prazo.
A ironia mais deliciosa é que boa parte da queda de demanda que a própria Nucor cita nos seus balanços vem justamente da desaceleração que as tarifas ajudaram a provocar. Encareça o aço, e a construção civil trava. Encareça o aço, e a manufatura contrai. Encareça o aço, e o mercado imobiliário congela. A serpente morde o próprio rabo, e o investidor, que acreditou no conto de fadas da reindustrialização por decreto, agora conta o prejuízo. O mercado é implacável precisamente porque não aceita mentira por muito tempo, ainda que a mentira venha carimbada em papel timbrado da Casa Branca.
No fim, o episódio serve de lembrete didático. Nenhum comitê, por mais bem intencionado, substitui a informação que milhões de compradores e vendedores comunicam uns aos outros através de preços livres. Quando o governo entra e mexe nessa engrenagem, ele não corrige o mercado, ele o cega. E mercado cego não gera emprego, gera pedido de recuperação judicial. A cotação da Nucor hoje é apenas mais um recibo assinado pela realidade contra a fantasia de que se cria riqueza cobrando pedágio na fronteira.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.