A ação da SharonAI Holdings amanheceu subindo e, como sempre, o motivo oficial veio embrulhado em papel de presente: parceria estratégica, expansão em inteligência artificial, contrato promissor, algum comunicado bem redigido que o mercado engole sem mastigar. Quer dizer, basta soletrar a sigla AI num release e a cotação levanta sozinha, como se as três letras carregassem alguma propriedade mística que dispensa balanço, caixa e lucro. É o velho truque do alquimista, só que agora com terno de Wall Street e roteiro escrito por relações públicas.

Olha, quem acompanha ciclos de euforia sabe reconhecer o cheiro. Ferrovias no século dezenove, rádio nos anos vinte, ponto com no fim dos noventa, criptomoedas em vinte e vinte e um, e agora tudo que respira algoritmo. A tecnologia é real, a promessa é real, o problema nunca foi esse. O problema é o abismo entre o valor genuíno que uma inovação cria ao longo de décadas e o preço que o rebanho paga por ela em pregões de três semanas. Cada bolha tem seu vocabulário próprio, e no momento a palavra mágica virou o rótulo universal para justificar múltiplos que nenhum fluxo de caixa sustentaria em juízo perfeito.

Me diz uma coisa: você já parou para perguntar quem está do outro lado da mesa quando o pequeno investidor aperta o botão de comprar no aplicativo? Alguém está vendendo. E quase sempre esse alguém tem nome, sobrenome, cargo executivo e assento no conselho. Siga o dinheiro e você encontrará o padrão de sempre, insiders reduzindo posição, fundos rotacionando carteira, banco de investimento colocando target price generoso na véspera de despejar o próprio estoque. A festa é organizada por quem já jantou; quem chega no final paga a conta e ainda ajuda a lavar a louça.

E há uma dimensão macro que ninguém quer olhar de frente. Toda essa euforia com papéis de tecnologia não brota do nada, floresce em solo adubado por juros artificialmente manipulados, liquidez despejada por bancos centrais durante anos e a certeza tácita de que, se der ruim, o contribuinte cobre o rombo. O dinheiro fácil produz teses fáceis, e teses fáceis produzem preços que só fazem sentido enquanto a impressora continuar rodando. No dia em que a torneira fecha de verdade, descobre-se que o rei estava nu e a inteligência artificial da empresa era, no fundo, inteligência humana muito comum vendendo narrativa a peso de ouro.

O que se vê é a manchete comemorando a alta do dia. O que não se vê é a poupança de aposentado convertida em papel supervalorizado, o capital produtivo desviado de projetos com retorno real para casinos digitais, e a geração inteira aprendendo que trabalhar, poupar e investir com paciência é coisa de otário quando o vizinho ficou rico apostando em três letras da moda. A cada ciclo desses, a cultura do trabalho recua um pouco mais e a cultura do palpite avança. Isso não é crescimento econômico, é transferência de riqueza travestida de progresso.

Não estou dizendo que a inteligência artificial não vai transformar o mundo. Vai, e provavelmente mais do que os entusiastas atuais imaginam, só que da forma como as revoluções tecnológicas de verdade acontecem, ou seja, ao longo de vinte anos, com dezenas de empresas quebrando pelo caminho e três ou quatro sobreviventes construindo algo duradouro. Enquanto isso, o pregão vai continuar oferecendo altas espetaculares em papéis que ninguém sabe direito o que fazem, e o pequeno investidor vai continuar sendo convidado para o baile depois que a orquestra já começou a guardar os instrumentos. Bolha não avisa quando estoura, só cobra a entrada de quem chegou por último.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.