O Federal Reserve elevou os juros novamente e a manchete se apressa em explicar o gesto como resposta a um choque de oferta, como se a autoridade monetária fosse um bombeiro heroico correndo para apagar um incêndio que apareceu do nada. Só que o incêndio não caiu do céu. Ele foi ateado, gota a gota, por uma década de dinheiro barato, expansão de balanço obscena e taxa de juros mantida artificialmente baixa para financiar farra fiscal em Washington. Agora que a fatura chegou, o mesmo bombeiro que ateou o fogo se veste de salvador e cobra ingresso para o espetáculo.
A tese oficial é confortável: a culpa é da guerra, do petróleo, das cadeias de suprimento, do clima, de Marte. Qualquer coisa serve, desde que a origem monetária do problema fique fora do radar. Mas basta seguir o rastro do dinheiro para enxergar o truque. Quando o banco central compra trilhões em títulos do próprio Tesouro, ele não está financiando prosperidade, está financiando gastança. E gastança financiada por impressora não some no ar, ela reaparece meses depois no preço do pão, da gasolina, do aluguel e do parafuso de uma máquina em Ohio. Choque de oferta virou o novo nome cerimonioso para um fenômeno velho como a moeda fiduciária: quando se imprime muito, o poder de compra encolhe.
O detalhe engraçado, se não fosse trágico, é que a mesma instituição que jurou por anos que a inflação era transitória agora aperta o torniquete como se o problema fosse dos outros. Nada é transitório quando o vício é estrutural. E o vício é este: o Estado americano gasta o que não tem, o Tesouro emite dívida para cobrir, e o banco central compra a dívida com dinheiro criado do nada. É uma engrenagem que funciona enquanto o mundo aceita o dólar sem perguntar de onde ele vem. No dia em que perguntar, a conta vem inteira e com juros.
Elevar juros em pleno choque de oferta é confessar, sem confessar, que o problema nunca foi só o preço do barril de petróleo. Se fosse, subir juros não resolveria absolutamente nada, porque apertar crédito para produtor não faz brotar petróleo do subsolo do Texas. O que o aperto faz é sufragar demanda, esmagar pequeno empresário, quebrar tomador de crédito imobiliário e, com sorte, esfriar o suficiente para que os preços parem de subir sem que se precise admitir a origem monetária da bagunça. É cirurgia sem anestesia, feita com o bisturi errado, no paciente errado, para esconder o diagnóstico correto.
E enquanto o cidadão comum paga a conta com prestação mais cara, financiamento negado e emprego que evapora, o arranjo de sempre segue intocado. Os grandes bancos, que ganharam rios de dinheiro na era do juro zero, agora ganham novamente porque emprestam caro. As tesourarias públicas continuam emitindo dívida a rodo. E o discurso técnico, cheio de gráficos e siglas, cumpre sua função ritual: transformar uma escolha política em fenômeno da natureza, como se juros fossem chuva e inflação fosse maré. Não são. São decisões humanas, tomadas por gente com nome, endereço e telefone, que responde a incentivos como todo mundo.
O que se vê é o Fed subindo juros para combater um incêndio. O que não se vê é o Fed apagando fósforos com o mesmo braço que os acendeu. Enquanto o mercado engolir esse teatro sem rir, o roteiro se repete: expansão, euforia, ressaca, aperto, recessão, e o próximo ato começa com nova promessa de que desta vez será diferente. Não será. Nunca é.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.