Os bancos gregos voltaram à moda. Piraeus, Alpha, Eurobank, National Bank of Greece; os quatro grandes que há uma década estavam sendo recapitalizados às pressas com dinheiro europeu para não arrastar o continente inteiro para o buraco, agora aparecem em relatórios de casas de análise como oportunidade imperdível, com múltiplos baratos, dividendos generosos e uma tese de recuperação que soa quase poética. O detalhe que ninguém quer lembrar é que essa recuperação não veio do céu, nem do talento gerencial de banqueiros helênicos redimidos; veio de uma montanha de dinheiro impresso, de socorros orquestrados por burocratas em Bruxelas e Frankfurt, e de uma reestruturação de dívida que empurrou o custo do calote para debaixo do tapete contábil europeu. Chamar isso de recuperação é como elogiar a saúde de um paciente que só está de pé porque está entubado.

Vale a pena olhar para o mecanismo. Quando o Banco Central Europeu inunda o sistema com liquidez a juro artificialmente baixo, ele produz um efeito colateral que qualquer estudante honesto de economia consegue enxergar; empurra investidor para tomar risco que ele normalmente não tomaria, porque o rendimento seguro sumiu. É assim que dívida soberana grega, que há dez anos era considerada tóxica, hoje paga menos do que o Tesouro americano em certos vencimentos. É assim que banco grego, que estava tecnicamente falido, hoje é vendido como aposta contrária esperta. Não há milagre, há distorção de preços em escala continental, patrocinada por gente que nunca vai pagar a conta quando ela chegar.

Siga o dinheiro e a fotografia fica mais nítida. Os bancos gregos foram limpos com dinheiro público europeu, ou seja, com imposto do alemão, do holandês, do finlandês, que engoliu em silêncio a socialização de prejuízos privados sob o argumento de salvar o euro. Os credores originais, aqueles bancos franceses e alemães que emprestaram alegremente para o governo grego durante os anos gordos, escaparam quase intactos porque foram protegidos pelo pacote. Quem pagou foi o contribuinte europeu médio e o aposentado grego que viu sua poupança evaporar em capital controls. Agora, com o balanço arrumado à força, os mesmos bancos voltam ao mercado como se fossem histórias de superação; a versão financeira daquela lenda urbana em que o bêbado da esquina jura que largou a bebida, três dias antes de cair na sarjeta de novo.

Há ainda o problema que ninguém coloca no relatório de recomendação. A economia grega continua estruturalmente frágil, com produtividade baixa, demografia em queda livre, Estado inchado, judiciário lento e uma cultura política que já provou várias vezes que troca reforma por benesse na primeira crise de rua. A carteira desses bancos é o reflexo dessa economia; empréstimo para pequeno empresário sufocado por burocracia, financiamento imobiliário em um país que perde jovens todos os anos para Berlim e Londres, crédito ao consumo em uma sociedade envelhecida. Um choque externo modesto, uma alta de juros um pouco mais firme do BCE, uma nova crise energética no Mediterrâneo, e o castelo de cartas volta a tremer, porque a estrutura embaixo nunca foi consertada, apenas escondida.

O mais irônico é que esse ciclo se repete com precisão de relógio suíço, e ainda assim sempre pega gente desprevenida. Expansão de crédito artificial, boom de ativos, entusiasmo generalizado, analistas descobrindo valor onde antes só viam risco, correção brutal, socorro estatal, memória apagada, e recomeço. É o mesmo enredo dos bancos irlandeses em 2008, dos bancos italianos em 2011, dos bancos espanhóis em 2012, e agora dos bancos gregos em 2026. Quem quer participar da festa que participe, com dinheiro que possa perder e sem se enganar sobre a natureza do brinde; não é investimento em produtividade real, é aluguel de assento em cadeira musical, e cadeira musical sempre acaba com alguém em pé.

A lição que a Europa se recusa a aprender é que salvar bancos zumbis com dinheiro público não cria prosperidade, apenas adia colapso e transfere riqueza de quem produz para quem especulou mal. A Grécia foi transformada em vitrine desse experimento; um país que fingiu se reformar para continuar recebendo, e um sistema bancário que fingiu se recuperar para continuar existindo. Quando o próximo ciclo virar, e ele vai virar, os mesmos gênios que hoje recomendam comprar vão explicar em painéis de televisão que ninguém poderia ter previsto. Ninguém, exceto quem se dá ao trabalho de lembrar que economia sem preço verdadeiro é teatro, e teatro sempre termina quando cai o pano.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.