A carne moída nos Estados Unidos atingiu preço recorde em pleno governo que prometeu, com toda a pompa de comício, "derrubar os preços no primeiro dia". Trump anunciou tarifas, ameaçou frigoríficos, prometeu importar carne argentina, fez o teatro completo do homem forte que resolve tudo com a força da vontade presidencial. E o consumidor americano continua pagando mais caro por um pacote de moída do que pagava antes de toda essa encenação. O que se vê é o preço na etiqueta. O que não se vê é o motivo pelo qual nenhuma canetada, tarifa ou ameaça consegue fazer o preço obedecer.
Olha, a coisa é mais simples do que os articulistas do New York Times querem que pareça. O rebanho bovino americano está no menor nível em setenta anos. Secas prolongadas no meio-oeste destruíram pastagens, custos de ração dispararam, criador vendeu matriz para sobreviver, e agora não há como reconstituir o plantel do dia para a noite. Vaca não é fábrica de parafuso. O ciclo biológico do gado ignora soberanamente o calendário eleitoral e os tuítes presidenciais. Quer dizer, o governo pode até assinar decreto ordenando que uma bezerra fique adulta em seis meses, mas a bezerra não leu o decreto.
E aí entra o teatro das intervenções em cascata. Trump ameaça os frigoríficos de "gouging", aquela palavra mágica que o político usa quando não quer admitir que o culpado é o próprio governo. Se o problema fosse ganância empresarial, os preços já estariam altos há vinte anos, porque ganância, meu caro, não é uma invenção de 2026. O que mudou não foi o caráter moral dos pecuaristas. O que mudou foi a quantidade de gado disponível, os custos de insumos inflacionados por anos de impressão de dólar, e a estrutura tarifária que o próprio governo criou para "proteger" a indústria doméstica e agora precisa contornar importando o que antes proibia.
Siga o dinheiro e o retrato fica ainda mais interessante. As grandes empacotadoras, aquelas quatro que dominam oitenta por cento do processamento nos Estados Unidos, foram construídas em décadas de subsídio, protecionismo e captura regulatória bipartidária. Democratas e republicanos alimentaram esse oligopólio durante uma geração inteira, com a promessa de "segurança alimentar nacional", e agora fingem espanto quando o oligopólio se comporta como oligopólio. O pequeno açougueiro, o pequeno frigorífico regional, o produtor familiar que poderia oferecer alternativa, foram esmagados por regulamentações sanitárias desenhadas sob medida para quem tem departamento jurídico do tamanho de um Ministério. A concentração não caiu do céu. Foi construída tijolo por tijolo pelo mesmo governo que agora se apresenta como salvador.
A promessa de importar carne argentina é a última pirueta desse balé de contradições. Depois de décadas construindo muralhas tarifárias contra a carne do Mercosul em nome do trabalhador americano, o mesmo governo agora quer abrir a torneira para conter o descontentamento eleitoral. Não há princípio, não há coerência, não há doutrina. Há apenas a manobra do momento, a política do improviso, a economia como palco de reality show. Enquanto isso, a dona de casa em Ohio olha o preço da moída e não quer saber de discurso, quer saber por que trabalha mais para comer o mesmo. E a resposta honesta, aquela que nenhum ocupante da Casa Branca terá coragem de dar, é que o problema não começou nem termina nesta gestão.
A verdade que ninguém quer ouvir é que preços são informação, não capricho. Quando sobem, dizem algo que o mercado precisa saber: falta produto, sobra demanda, ajustem-se. Cada tentativa de silenciar essa mensagem, seja por tarifa, por ameaça, por importação subsidiada ou por controle disfarçado, apenas adia o ajuste e o torna mais doloroso quando finalmente vier. O presidente pode fingir que manda na carne moída. A carne moída, imperturbável, segue mandando no presidente.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.