O diesel voltou a bater no teto do ano, no maior patamar desde maio, e a manchete finge surpresa como se o preço fosse um fenômeno meteorológico, algo que caiu do céu junto com a chuva. Não caiu. Foi empurrado, empilhado, tributado, regulado e por fim entregue ao caminhoneiro na bomba com a etiqueta de "reajuste de mercado". Só que o mercado, aqui, é ficção. Existe uma estatal que finge concorrer consigo mesma, um regulador que finge fiscalizar, um Congresso que finge legislar, e no fim da fila, sempre, o sujeito que abastece o caminhão às cinco da manhã para levar tomate até a periferia de São Paulo.
Quando o preço do combustível sobe, a explicação oficial é sempre um enredo confuso sobre paridade internacional, câmbio, Brent, refino. É a cortina de fumaça técnica que serve para esconder a parte simples da equação. Cada litro de diesel no Brasil carrega uma carga tributária que faria corar qualquer aduana medieval. Some ICMS, PIS, Cofins, Cide dormente, contribuições estaduais em cascata e o custo regulatório de um sistema que decidiu, por decreto, quantas refinarias podem existir e a que preço podem vender. O que se vê é o preço no painel do posto. O que não se vê é a mão pesada do Estado, invisível como um bolso furado, sugando renda antes que ela chegue ao consumidor.
E aí entra a parte deliciosa do teatro. O mesmo governo que aperta o parafuso tributário aparece na tribuna prometendo "combater a alta do combustível" com programas, subsídios cruzados, isenções seletivas, tabelamentos disfarçados de "política de preços". Traduzindo do burocratês: eles quebram sua perna, oferecem uma muleta paga com o seu próprio dinheiro, e ainda esperam gratidão. Cada intervenção gera uma distorção, cada distorção pede outra intervenção, e a espiral vai comendo o poder de compra do trabalhador enquanto engorda o orçamento de quem administra a bagunça. É a fábrica perpétua de crise, com contratos de manutenção incluídos.
Siga o dinheiro e o roteiro fica ainda mais nítido. O diesel caro não é acidente, é receita. É arrecadação federal, é arrecadação estadual, é fôlego para refinaria estatal cumprir metas políticas, é margem para distribuidoras que operam num mercado com barreiras de entrada dignas de guilda medieval. Quem paga? O caminhoneiro autônomo que financia o próprio caminhão a juros de agiota. O pequeno produtor rural cujo defensivo e fertilizante viajam de caminhão. A dona de casa, que descobre no supermercado que o alface subiu porque o frete subiu porque o diesel subiu porque o Estado precisa fechar as contas de gastança que ela não autorizou.
Há uma pergunta que ninguém faz em programa de televisão. Por que o Brasil, país que produz petróleo, refina petróleo e exporta petróleo, cobra do seu próprio povo um dos combustíveis mais caros do continente em termos de poder de compra? A resposta não está em planilha de refinaria, está na natureza do arranjo. Um cartel legalizado entre governo, estatal e regulador não tem incentivo para baratear nada. Tem incentivo para preservar o próprio ecossistema. Falam em "soberania energética" enquanto entregam ao cidadão a soberania da inflação. Falam em "regulação eficiente" enquanto sepultam qualquer tentativa séria de abrir o mercado de refino a competidores privados. É capitalismo de compadrio com maquiagem tricolor.
A pena que dói de verdade não é a da bomba, é a da urna. Enquanto o brasileiro aceitar que o preço do combustível é assunto para "especialista", vai continuar sendo tosquiado por um sistema que precisa dele confuso para funcionar. O preço alto do diesel não é falha do capitalismo, é sucesso do intervencionismo. E toda vez que alguém prometer "resolver o problema do combustível" com mais Estado, lembre da lição mais barata da economia: o remédio que criou a doença nunca vai curá-la.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.