O petróleo se estabilizou nesta semana depois que as tensões no Oriente Médio deram uma trégua, e o noticiário econômico, sempre pronto a atribuir méritos aos figurões de sempre, parece constrangido em admitir o óbvio. Não foi banco central, não foi cúpula do G20, não foi ministro fingindo entender de energia numa entrevista à beira do avião. Foi o mercado. Simplesmente o mercado, aquele mecanismo silencioso que agrega em segundos a informação dispersa entre milhões de compradores, vendedores, refinarias, operadores de hedge, xeiques mal-humorados e cargueiros no Estreito de Ormuz. Quando o risco de mísseis diminui, o prêmio de guerra embutido no barril evapora. Não há mistério. Há preço fazendo o que sempre fez, desde que existe comércio entre humanos livres.
Repare no espetáculo: durante semanas, comentaristas falavam em "choque de oferta", "necessidade de intervenção", "cotas emergenciais", como se o barril fosse um adolescente descontrolado que precisasse de tutor. Alguns economistas de repartição já sugeriam liberar reservas estratégicas, tabelar combustível na bomba, criar mais um imposto verde para "estabilizar". E aí, sem pedir licença a ninguém, o próprio mercado estabilizou. A oferta se ajustou, a demanda se reacomodou, os contratos futuros recalcularam probabilidades, e o barril voltou ao patamar em que a realidade material o permite operar. Toda aquela sabedoria burocrática que estava a caminho, com carimbo e papel timbrado, virou despacho protocolado antes de nascer. Bom para o consumidor. Ruim para o burocrata que já sonhava com o cargo de "coordenador da política emergencial de energia".
A verdade que ninguém quer dizer é que o preço do petróleo carrega, além do custo de extração, refino e logística, um enorme prêmio de medo geopolítico. Toda vez que um drone risca o céu de Riade ou um navio é hostilizado no Golfo, esse prêmio sobe. Toda vez que a diplomacia rasteja e as ameaças diminuem, esse prêmio cai. É uma equação de risco, não de moralidade. Quem tenta enquadrar essa dinâmica com controle de preço, teto artificial ou subsídio direto está brigando com a termodinâmica social, e sempre perde. Perdeu na década de 1970, quando fila em posto virou paisagem urbana; perdeu no ensaio venezuelano, onde o país que boia em petróleo não tem gasolina; perdeu no Brasil das canetadas de tabelamento, cuja conta ainda estamos pagando parcelada, com juros de banco público.
E siga o dinheiro, que é sempre o exercício mais esclarecedor. Quem ganha com o barril nervoso são os operadores de derivativos bem posicionados, as petroleiras estatais que capitalizam a receita extraordinária e, principalmente, os governos que arrecadam mais imposto sobre combustível quando o preço sobe, e depois posam de salvadores quando o preço cai. É o velho truque: criar o problema, cobrar pelo problema, e cobrar de novo pela solução do problema. No Brasil, então, cada oscilação do petróleo internacional vira pretexto para mexer na fórmula da paridade, apertar a Petrobras a atender agenda política de curto prazo, ou justificar mais uma "contribuição temporária" que, todos sabemos, jamais será temporária. O nome disso não é política energética. É pilhagem com PowerPoint.
O que se vê é o alívio nos postos. O que não se vê é o custo cumulativo de décadas em que se preferiu o palpite do gabinete ao veredicto do mercado. Cada distorção que sobrou no sistema, cada refinaria que não foi construída porque o retorno era imprevisível, cada investimento em prospecção que fugiu para jurisdições menos intervencionistas, cada engenheiro que emigrou porque a estatal virou balcão de indicação, tudo isso é o preço invisível que já pagamos e continuaremos pagando. A estabilização do barril nesta semana não é vitória de política pública. É lembrete de que o sistema de preços, quando deixado em paz, faz em segundos o que nenhum planejador faz em uma década de reuniões.
Fica a lição, sempre a mesma, sempre ignorada por quem manda: o mercado não precisa de tutor. Precisa que o tutor saia da frente. Toda vez que os tanques recuam e os generais calam, o preço volta ao seu lugar natural, sem drama e sem discurso. O drama é dos que queriam usar a crise para ampliar poder, e ficaram sem o roteiro pronto quando ela desinflou sozinha. Que o próximo susto no Oriente Médio, e ele virá, encontre uma sociedade menos disposta a acreditar em salvadores fardados de terno.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.