O Brent bateu na porta dos US$ 110 e a manchete trata isso como se fosse tempestade tropical, algo que caiu do céu sem causa nem responsável. Olha, petróleo não sobe por acaso. Sobe porque alguém, em algum lugar, tomou decisões concretas que reduziram a oferta, aumentaram a demanda ou destruíram o poder de compra da moeda em que o barril é cotado. E quando as três coisas acontecem ao mesmo tempo, o resultado é exatamente esse: o motorista brasileiro pagando, no posto da esquina, o preço de reuniões fechadas em Washington, Bruxelas, Riade e Brasília.
Comecemos pelo óbvio que ninguém quer enxergar. Durante anos, os bancos centrais do mundo desenvolvido imprimiram trilhões para financiar pandemias, guerras, subsídios verdes e programas sociais eleitoralmente convenientes. Cada dólar novo emitido não some no ar; ele encontra ativos escassos e empurra preços para cima. Commodity é a primeira a sentir, porque commodity não pode ser fabricada por decreto. Você pode imprimir dinheiro, não pode imprimir barril de petróleo. Quando o dólar perde lastro, o petróleo cotado em dólar precisa de mais dólares para representar a mesma quantidade de energia. Isso não é conspiração, é aritmética elementar que qualquer aluno de primeiro período entenderia se as faculdades ainda ensinassem economia em vez de militância.
Agora siga o dinheiro do outro lado. Há uma década a elite tecnocrática global decidiu que combustível fóssil é pecado original, e que a salvação passa por sabotar sistematicamente o investimento em exploração, refino e transporte de hidrocarbonetos. ESG, taxonomia verde, regulação ambiental cada vez mais bizantina, sanções contra produtores considerados moralmente inaceitáveis do dia. O resultado prático dessa cruzada foi trivialmente previsível: menos oferta, mais fragilidade na cadeia, e uma dependência crescente de meia dúzia de regimes autoritários que agora seguram o mundo pelo pescoço. Quem financiou essa autossabotagem? O contribuinte, via subsídios a energias caras. Quem lucra? Os mesmos regimes que a moral ocidental fingia querer punir, mais os fundos que compraram ações de petroleiras a preço de banana antes da alta. Coincidência, claro.
No Brasil a história tem tempero local, e o tempero é picante. Petrobras estatizada de facto, política de preços submetida ao humor do Planalto, refino sucateado por decisão política, e um governo que ainda acredita que segurar preço na bomba é ato de justiça social, quando na verdade é dívida transferida para os netos. Quando o Brent sobe lá fora e o repasse não vem, alguém está pagando a diferença; e esse alguém é sempre o mesmo pagador universal, o cidadão que trabalha, produz e é confiscado três vezes antes de chegar em casa. Controle de preço não elimina custo, apenas o esconde debaixo do tapete até o tapete pegar fogo.
E aí vem o coro dos analistas de banco explicando que a culpa é da geopolítica, do clima, da OPEP, dos hutis, dos russos, dos chineses, de qualquer entidade convenientemente distante do microfone. Ninguém aponta o dedo para o verdadeiro arquiteto do problema: o arranjo global que combina moeda podre com moralismo energético e planejamento central disfarçado de mercado. Petróleo caro não é acidente, é política pública bem-sucedida, exatamente aquilo que foi desenhado para acontecer, só que agora com o bônus da negação plausível. Quer dizer, quando a conta chega, ninguém encomendou o jantar.
O motorista que abastece amanhã de manhã não vai pensar em política monetária, em taxonomia verde, em geopolítica do Golfo. Vai xingar o frentista, o governo da vez, talvez a companhia. Mas o preço no display é a soma honesta de todas as desonestidades acumuladas ao longo de vinte anos de intervencionismo internacional. Cada centavo a mais é um recibo de uma decisão que foi tomada em seu nome, sem sua autorização, e cuja fatura você agora paga sem direito a reclamar. Enquanto acharmos que energia cara é problema de mercado, e não de Estado, continuaremos pagando duas vezes: uma no imposto que financia a bobagem, outra na bomba que reflete o resultado dela.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.