A Mission Group anunciou a saída do seu presidente e transferiu a liderança para o CEO Carey, num movimento apresentado com aquela prosa asséptica que as empresas usam quando querem que você olhe para o lado. Nada de detalhes sobre desavenças, discordâncias estratégicas ou pressão de acionistas. Só o velho ritual do agradecemos pelos serviços prestados, o aperto de mão institucional e a promessa de continuidade. Quer dizer, se está tudo tão bem, por que mexer no organograma?

Concentrar presidência e cadeira executiva numa única pessoa é o oposto do que qualquer manual sério de governança recomenda há décadas. O sujeito que executa e o sujeito que fiscaliza a execução deveriam ser diferentes, justamente para que o segundo possa olhar para o primeiro e dizer não. Quando os dois viram um só, o conselho vira plateia, o acionista minoritário vira figurante, e o CEO vira um pequeno monarca constitucional sem constituição. Isso não é modernização, é feudalização corporativa vendida como agilidade.

Olha, o mercado tem uma tolerância impressionante para esse tipo de arranjo enquanto o preço da ação sobe. Governança boa é aquela que dá lucro no trimestre; governança ruim é aquela que dá prejuízo. O resto é conversa para congresso de compliance. Só que quando o vento vira, e ele sempre vira, aparece a conta escondida: decisões tomadas sem contestação, riscos assumidos sem freio, remuneração aprovada por conselho amigo. Aí o mesmo acionista que aplaudiu a concentração vai chorar no fórum reclamando de falta de transparência.

Me diz uma coisa, quem ganha com essa troca? O CEO ganha poder, o presidente que saiu provavelmente ganhou um pacote de desligamento que ninguém vai divulgar em detalhe, e o conselho ganhou a paz de não ter mais que arbitrar disputa entre dois egos no topo. O acionista pulverizado, esse ganhou um comunicado. É a velha regra: siga o dinheiro e você acha o motivo. O comunicado oficial serve para tudo, menos para explicar o que de fato aconteceu na sala onde a decisão foi tomada.

Existe uma sabedoria antiga, dessas que o mundo corporativo insiste em redescobrir a cada geração, que diz para você não derrubar uma cerca antes de entender por que ela foi construída. A separação entre presidência e execução não foi inventada por burocrata entediado; foi resposta a séculos de escândalo, fraude e destruição de valor por concentração de poder. Toda vez que alguém decide que essa cerca é obsoleta, o mercado descobre uns dois ou três anos depois por que ela existia. E o custo dessa redescoberta nunca é pago pelo executivo que derrubou a cerca.

Enquanto isso, o comunicado segue circulando, os analistas seguem reciclando o mesmo parágrafo com adjetivos ligeiramente diferentes, e a rotina segue. Até o dia em que não seguir. Poder concentrado no topo é atalho, e atalho corporativo cobra pedágio com juros compostos.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.