A notícia chegou seca, quase sem alarde, escondida entre gráficos de tecnologia e manchetes sobre inteligência artificial. Tooey Courtemanche, o presidente e fundador da Procore Technologies, empresa de software para construção civil listada como PCOR, despejou no mercado cerca de três milhões de dólares em papéis da própria companhia. Não é ilegal. Não é sequer inédito. Executivos vendem ações o tempo todo, e existem até planos programados para dar verniz de legitimidade à operação. Só que, olha, quando o capitão desce do navio com uma mala cheia enquanto os passageiros ainda estão jantando no salão principal, alguma pergunta precisa ser feita.
A defesa padrão desses movimentos é sempre a mesma cantilena: diversificação de patrimônio, planejamento tributário, compromissos pessoais, plano 10b5-1 registrado com antecedência. Traduzindo para o português dos mortais, significa que existe uma engenharia jurídica sofisticada montada exatamente para permitir que quem tem informação privilegiada venda sem parecer que está vendendo com base em informação privilegiada. É o tipo de arranjo que só existe porque quem escreve as regras é da mesma classe social de quem se beneficia delas. O varejo, esse coitado, compra pelo home broker e reza para não ter caído numa armadilha montada dois trimestres antes.
Vamos seguir o dinheiro, porque é sempre no caminho do dinheiro que a verdade aparece. A Procore vive de vender software por assinatura para o setor de construção, um setor cíclico, sensível a juros altos, sensível a crédito escasso, sensível a tudo aquilo que o Federal Reserve tem produzido industrialmente nos últimos anos. Quando o custo do capital sobe, obra para. Quando obra para, licença de software vira despesa cortável. E quando o presidente da empresa começa a reduzir posição em milhões, o sinal que ele emite, queira ou não queira, é que talvez o próximo trimestre não seja aquele festival de crescimento que o material de investidor promete.
O que se vê é a manchete anódina de sempre, o executivo vendendo papel, o preço oscilando um por cento, o analista de banco produzindo relatório morno recomendando manter. O que não se vê é o pequeno investidor que entrou na ação porque leu que era tecnologia promissora, o fundo de pensão que carrega essas posições sem entender direito o que compra, o trabalhador americano cuja aposentadoria depende de gestores que confiam mais no comunicado oficial do que na aritmética simples de quem sabe mais do que os outros. A assimetria de informação é o combustível silencioso do mercado moderno, e o regulador finge que administra o que na verdade só chancela.
Existe uma ironia deliciosa em tudo isso. A mesma cultura que crucifica um pequeno empresário por ter esquecido de emitir uma nota fiscal de cem reais aplaude solenemente o executivo bilionário que se desfaz de posição usando instrumentos que ninguém do andar de baixo tem acesso. Os moralistas do capitalismo de compadrio adoram falar em governança, transparência, boas práticas, enquanto o próprio sistema é desenhado para que os de dentro saiam pela porta da frente e os de fora fiquem segurando o mico. A palavra correta para isso não é mercado, é privilégio institucionalizado.
Não se trata de dizer que o homem cometeu crime. Trata-se de reconhecer que o jogo é jogado com dois baralhos, um para quem senta na cadeira do conselho e outro para quem aperta o botão de comprar no aplicativo do celular. Enquanto essa hipocrisia estrutural for tratada como normalidade, o cidadão comum continuará financiando com sua poupança a saída ordenada dos que sabem mais do que ele. E quando a ação despencar, se despencar, o comunicado oficial explicará que ninguém poderia ter previsto. Ninguém, exceto quem vendeu três milhões antes.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.