Oitenta e seis mil dólares. É esse o valor que fez manchete numa terça-feira qualquer, como se um executivo que ganha milhões em salário, bônus e stock options tivesse feito algum sacrifício heroico ao comprar um punhado de ações da própria empresa. Para dar dimensão, é menos do que muitos desses mesmos executivos gastam num relógio, num fim de semana em Aspen ou numa mesa de jantar em Nova York. Mas o mercado, que precisa de rituais para funcionar como precisa de gráficos para justificar decisões já tomadas, transforma esse gesto minúsculo em sinal de confiança, em indicador, em profecia.
Quer dizer, quando o presidente executivo compra ações da empresa que ele mesmo dirige, o que exatamente está sendo comunicado? Que ele acredita no negócio? Ora, se ele não acreditasse, não estaria lá. Que ele tem informação privilegiada de que virão bons ventos? Isso seria crime, embora ninguém queira tocar no assunto quando o preço sobe. Que ele está alinhando seus interesses com os dos acionistas? Ele já ganha em ações, já tem opções, já é remunerado com participação. A verdade é que esse tipo de compra, no volume divulgado, é rigorosamente irrelevante como sinal econômico, e serve principalmente para alimentar a máquina de notícias que precisa produzir conteúdo mesmo quando não há nada acontecendo.
Olha, o mercado moderno virou uma seita que interpreta oráculos. Cada compra de insider vira manchete, cada venda vira suspeita, cada tweet de CEO vira análise técnica. Enquanto isso, as decisões que realmente movem o valor de uma empresa, alocação de capital, estratégia de longo prazo, cultura organizacional, capacidade de execução, são discutidas em salas fechadas e resumidas em comunicados que ninguém lê. O investidor comum, que deveria estar avaliando fundamentos, é treinado para caçar sinais em migalhas, e paga bem caro pelos serviços de quem promete decifrar esses sinais que muitas vezes não significam absolutamente nada.
Me diz uma coisa, o que aconteceria se essa mesma notícia fosse escrita com honestidade? Algo como "executivo compra fração irrelevante de ações da própria empresa, provavelmente por recomendação do departamento de relações com investidores, para gerar manchete positiva num momento em que a companhia precisa reforçar percepção de solidez". Ninguém publicaria, ninguém clicaria, e a máquina de conteúdo financeiro perderia mais uma bala do seu tambor cada vez mais vazio. Por isso o teatro continua, com todos fingindo que oitenta e seis mil dólares num executivo bilionário é notícia de mercado.
Há algo mais profundo aqui, e vale prestar atenção. O capitalismo genuíno, aquele que gera riqueza real, vive de decisões descentralizadas de milhões de pessoas alocando recursos escassos com base em preços verdadeiros. O que temos hoje, cada vez mais, é um simulacro onde poucos jogadores enormes movimentam bilhões enquanto o restante do mercado assiste como plateia, tentando ler nas entrelinhas de gestos coreografados o que os grandes vão fazer a seguir. Compra de insider virou performance, guidance virou script, earnings call virou peça de teatro. E o pequeno investidor, coitado, paga o ingresso achando que está participando do espetáculo quando na verdade é ele o espetáculo, mais precisamente, é o dinheiro dele que faz o show acontecer.
A lição que fica é simples e desconfortável. Nem toda notícia é notícia, nem todo sinal é sinal, e boa parte do que se chama de análise financeira é apenas leitura de folhas de chá com terno e gravata. Um executivo comprou ações da própria empresa por um valor que, para ele, é troco. E disso se fez matéria. O verdadeiro escândalo não está na compra, está em fingirmos coletivamente que essa compra importa.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.