Trinta e três mil e seiscentos e cinquenta e um dólares. Esse é o tamanho da aposta que o presidente executivo da Hyperscale Data, Milton Ault, fez nas ações da empresa que ele mesmo comanda. Para colocar em perspectiva, é menos que um carro de luxo, menos que uma reforma de cozinha em bairro nobre paulistano, menos que a comissão de um corretor médio numa venda de apartamento em Miami. E, no entanto, sites de notícias financeiras noticiaram o gesto com a solenidade de quem anuncia um novo pacto de Bretton Woods. Olha, quando o mercado precisa se agarrar a este tipo de migalha para justificar otimismo, o problema não está na migalha, está no mercado.

O nome disso, no jargão de Wall Street, é insider buying, e existe uma teoria acadêmica bonitinha que diz o seguinte: quando o executivo compra ações da própria empresa, é porque ele sabe algo que o mercado não sabe e está apostando no futuro. A teoria é elegante, tem tabelas, tem gráficos, tem paper publicado. O problema é que ela ignora um detalhezinho comportamental que qualquer camelô da rua Vinte e Cinco de Março entenderia em cinco segundos: quando o dono do restaurante come no próprio restaurante em frente aos clientes, não é porque a comida é boa, é porque ele precisa que os clientes achem que é. Encenação é encenação, tenha o executivo um MBA em Harvard ou um boné da associação comercial.

Siga o dinheiro e a história fica mais interessante. A Hyperscale Data é uma dessas empresas que nadam nas águas turvas da inteligência artificial, mineração de criptomoeda, data centers, tudo aquilo que virou palavra mágica para atrair capital especulativo desde que os bancos centrais decidiram que imprimir moeda era hobby respeitável. Empresas assim vivem de narrativa. E narrativa precisa ser alimentada. Se o presidente executivo não compra publicamente as próprias ações de vez em quando, o mercado começa a perguntar por que ele não compra. E o dia em que o mercado começa a fazer perguntas, o feitiço acaba.

O que ninguém vê nesta compra ridícula de trinta e três mil dólares é o que o próprio executivo já embolsou em salário, bônus, opções e vendas anteriores. Ninguém abre a planilha completa. Ninguém pergunta quanto ele já sacou da mesma empresa nos últimos cinco anos. A imprensa financeira, que deveria ser cão de guarda, virou papagaio de release. Recebe o comunicado, publica o comunicado, cobra pelo espaço publicitário na página seguinte e vai dormir com a consciência tranquila de quem cumpriu seu papel de agente de comunicação corporativa disfarçado de jornalista.

Há uma lição maior escondida neste episódio insignificante, e ela vale para o Brasil, para os Estados Unidos e para qualquer economia que confundiu especulação com produção. Quando uma empresa precisa que o próprio chefe faça compras teatrais para sustentar o preço da ação, o valor real daquela empresa já está sendo questionado silenciosamente por quem entende do jogo. Preço não é valor. Preço é o que as pessoas topam pagar quando ainda acreditam na história. Valor é o que sobra quando a história acaba. E histórias sempre acabam. Perguntem aos investidores da bolha das pontocom, aos compradores de imóveis subprime, aos entusiastas de token com nome de cachorro. A festa termina, e quem ficou segurando o mico paga a conta.

No fim, o gesto do executivo diz mais sobre o estado da confiança no capitalismo financeiro contemporâneo do que sobre a saúde da Hyperscale Data. Numa economia sadia, ninguém precisaria comprar publicamente as próprias ações para provar que acredita na empresa. Bastaria produzir bem, entregar resultado e deixar o mercado descobrir por conta própria. O fato de que este teatrinho existe, de que ele é noticiado, de que ele move preços, é o sintoma. A doença é a distância cada vez maior entre o preço dos ativos e a realidade produtiva que deveria sustentá-los. E quando essa distância vira abismo, alguém sempre cai. Nunca é o executivo que comprou trinta mil dólares para a foto.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.