A cena se repete com a pontualidade de um horário nobre. Uma empresa de biotecnologia, ainda sem lucro consistente, aluga o palco de uma conferência de investidores, projeta slides bonitos com hélices coloridas, promete revolucionar a medicina e sai de lá com o preço da ação inflado por alguns dias. A Prime Medicine acaba de fazer exatamente isso, apresentou sua plataforma de edição genética a um auditório de gestores de fundos que precisam justificar seus bônus com a próxima grande aposta. E o mercado, treinado como cão de Pavlov, aplaude.
Olha, ninguém aqui é contra ciência. O problema não é a técnica de reescrever letras do DNA, que é fascinante e pode um dia salvar vidas. O problema é o arranjo financeiro que sustenta essas empresas antes que salvem qualquer paciente. Você tem uma companhia que queima centenas de milhões por ano, não tem receita relevante, e sobrevive de rodadas sucessivas de capital, muitas delas lubrificadas por incentivos fiscais, créditos de pesquisa e a expectativa de que agências governamentais vão pagar caro pelo produto final. O contribuinte americano, e por tabela o brasileiro que compra remédio importado, financia essa aposta duas vezes, primeiro pelo desconto tributário na origem, depois pelo preço monopolista na chegada.
Quer dizer, o que se vê é a manchete triunfal sobre a cura do futuro. O que não se vê é a fila de startups idênticas que quebraram nos últimos vinte anos deixando prejuízo para pequenos investidores enquanto os fundadores saíam de paraquedas dourado. Não se vê o custo de oportunidade do capital que poderia estar em pesquisa aplicada com resultado tangível, e foi drenado para narrativas de palco. Não se vê que cada dólar concedido em benefício fiscal a esse setor é um dólar que sai do bolso de alguém que trabalha e paga imposto integral, sem plataforma, sem palco, sem apresentação.
Me diz uma coisa, quando o burocrata da agência reguladora, o gestor do fundo de pensão e o executivo da farmacêutica se sentam na mesma mesa da conferência, quem exatamente representa o cidadão comum que vai tomar o remédio? Ninguém. E é justamente essa ausência que permite que o preço final do tratamento chegue a cifras absurdas, protegido por patentes estendidas, por regulação que sufoca a concorrência, por acordos de compra centralizada onde o governo é o único comprador possível e portanto o único capaz de bancar o roubo. Chama-se capitalismo, mas de capitalismo tem pouco. É corporativismo puro, o casamento entre lobby empresarial e caneta estatal que Adam entendia bem quando desconfiava de reuniões entre comerciantes.
A promessa da edição genética como plataforma tem ainda outro ângulo que merece o olhar torto. Plataforma, no vocabulário do vale, significa infraestrutura sobre a qual outros pagam para operar. É o modelo do pedágio. Você constrói a estrada com dinheiro público e privado misturado, e depois cobra de todo mundo que precisa passar. Aplicado ao genoma humano, isso vira algo mais grave, porque o pedágio incide sobre a própria biologia da pessoa. Curar uma criança com doença rara pode custar dois milhões de dólares porque a plataforma precisa dar retorno aos acionistas que pagaram o palco da conferência do ano passado. E o Estado, que subsidiou a pesquisa, agora paga o preço final como se fosse cliente privado. É o contribuinte financiando o próprio tratamento com juros de agiota.
A técnica é notável, repito. Mas técnica notável nas mãos de um arranjo institucional podre produz o que sempre produziu, riqueza concentrada para poucos e conta rateada para todos. Enquanto a plataforma sobe no palco, a estrutura invisível que a sustenta continua chupando o suor de quem nunca ouviu falar em conferência de biotecnologia. E é sobre esses invisíveis que ninguém escreve manchete.
Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.