Mohammed bin Salman aterrissou em Washington com a discrição de um xeque em feira de gado e saiu com o rabo entre as pernas. Pediu a Trump, olho no olho, que a força aérea americana fizesse o serviço sujo que os pilotos sauditas não conseguiram fazer em oito anos de bombardeio no Iêmen: liquidar os houthis. Trump, para surpresa dos analistas de banco que ainda acham que o dólar do Golfo compra qualquer coisa, recusou. Não por pacifismo, óbvio, mas porque até um imperador com megalomania sabe que meter tropa em pântano tribal do sul da Península Arábica é receita pronta para virar mais um Vietnã ou mais um Afeganistão, com a diferença de que dessa vez o cliente é um monarca absoluto de bermuda de seda.

Quer dizer, o pedido em si já é confissão de falência. O reino saudita gasta setenta e cinco bilhões de dólares por ano em defesa, tem o terceiro maior orçamento militar do planeta, compra F-15, compra Patriot, compra tudo que a Lockheed empurra, e no fim precisa mendigar que o Tio Sam bombardeie um bando de guerrilheiros descalços que atravessa montanha de sandália. Se isso não é o retrato mais didático de que gasto militar estatal é um esquema de transferência de renda do contribuinte americano para o lobby armamentista, disfarçado de aliança geopolítica, eu não sei mais o que é.

Olha, siga o dinheiro e a farsa se desmonta sozinha. Cada míssil houthi que cai num navio no Mar Vermelho serve de pretexto para renovar contratos bilionários com Raytheon, Boeing e General Dynamics. A guerra do Iêmen é, na prática, um subsídio permanente à indústria bélica americana pago pela família real saudita, que por sua vez repassa a conta ao preço do petróleo, que por sua vez chega ao posto de gasolina no interior do Texas e na periferia de São Paulo. O contribuinte paga duas vezes: no imposto que financia a base americana no Golfo e no combustível encarecido pela instabilidade que essa mesma base perpetua. Aquilo que se vê é o navio atingido; aquilo que não se vê é o cartel de fornecedores rindo em Bethesda.

E tem a camada moral, que ninguém quer olhar. Um regime que serra jornalista dentro de consulado, que decapita em praça pública, que financia madrassa wahabita em meia dúzia de continentes, chega em Washington bancando o civilizador contra o "terrorismo houthi". Me diz uma coisa, quem é o civilizado nessa história? A resposta honesta é que não há mocinho, há dois braços do mesmo intervencionismo teocrático que se digladiam com dinheiro emprestado do Ocidente. Trump, no fundo, entendeu o óbvio que meio Departamento de Estado passou trinta anos fingindo não enxergar: os Estados Unidos não têm interesse nacional real em decidir qual facção islâmica manda no deserto alheio.

O recado geopolítico, esse sim, é sísmico. Por décadas a Casa de Saud operou com a certeza de que bastava telefonar para Washington e a Sétima Frota se movia. Essa certeza acabou. Riade agora corre para os braços de Pequim, que já intermediou a reaproximação com o Irã, e para Moscou, que vende drone barato sem fazer sermão sobre direitos humanos. O mundo unipolar, aquele que a burocracia do Foggy Bottom jurou eterno depois de 1991, está sendo enterrado em tempo real, e o coveiro é justamente o presidente que os iluminados chamam de isolacionista ignorante.

Fica a lição para quem ainda acredita em aliança militar como substituto de mercado livre e diplomacia comercial: quem aluga exército alheio para resolver problema doméstico está a um "não" de descobrir que soberania terceirizada é ficção contábil. O príncipe voltou de mãos vazias, e o petróleo do Golfo, pela primeira vez em muito tempo, vai ter que aprender a se defender sozinho ou negociar como gente grande. Bem-vindos ao mundo real, alteza.

Com informações da Investing.com BR. A análise e opinião são do O Algoz.